quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O tal do Pedro, por Clara Arôxa

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Ele tinha altura mediana, fazia o estilo despojado, apenas em casa: calça de algodão, camisa básica e uma sandália confortável. Fora de casa, terno bem alinhado, gravata de seda italiana- fazia questão da marca, era coisa de princípios, impunha respeito, você sabe. Possuía um emprego descente, falava,fluentemente, inglês, francês e espanhol, devido aos anos passados na Inglaterra, naquele curso qualquer que garantiu o diploma, nunca utilizado, na moldura bonita da parede. Na verdade, não era qualquer parede, tratava-se de uma especialmente reservada para as letras fincadas em um pedaço de papel duro e brilhoso, numa posição estratégica para quem entrasse na sala, pudesse observar os dourados da moldura e exprimir aqueles salves e vivas de quem não tem nada a dizer. A vida tinha dessas incoerências e não cabia a ele discuti-las. Pensando bem, Pedro mal discutia, voltava apenas ao código penal, os direitos do consumidor e àquela prova do concurso que não chega nunca. Nada de sorrisos, isso gera intimidade e intimidade, meu amigo, é um caminho perigoso demais por não ter volta. Abraços só superficiais, vamos manter a decência no ambiente, visto que, minha pessoa precisa estar fora dos zunzunzuns cotidianos.

Pedro tinha uma rotina exata, instransponível: corria pela manhã, mas sem conversar com ninguém porque havia escutado que tal prática dificulta o processo de corrida e, além do mais, a pessoa do lado crê que faz parte de sua vida íntima, ninguém se intrometia em sua vda. Depois, ia ao trabalho, dava o melhor de si, em uma sala isolada dos outros funcionários e com um ar condicionado no último volume, e voltava para casa, na busca da aceitação do espelho do elevador. Era fácil, pois as obrigações do outro dia deixavam seus olhos embaçados para enxergar qualquer outra coisa, e, de uns tempos para cá, devido à insônia, os remédios lhe cabiam feito bênção divina. Pedro dormia, mas não sonhava, acumulava, por toda a parte do corpo, somas significativas de medo e angústia, como uma gravata italiana e de seda apertando o seu pescoço.

Acordou,correu, vestiu o terno com a gravata italiana e de seda, continuou sua rotina milimetricamente planejada para manter a ordem e a estabilidade. Ordem e estabilidade, um passo de cada vez, respiração controlada, tempo cronometrado e a cabeça no processo daquela pessoa jurídica. Andar um passo adiante ou deixar o relógio andar sem pressa não faziam parte dos entendimentos lógicos de Pedro. Ele era um homem sério, comprometido com o trabalho e responsável. Morava com sua coleção de gravatas italianas, seu armário de ternos da mesma cor, seu chinelo sempre presente e uma secretária eletrônica gravada para qualquer recado que fosse urgente, para os que não fossem e para os que viriam ser. Nenhum recado, nenhuma carta, nenhum recado dado por aquele vizinho distante, nem um bilhete de cobrança enviado pelos correrios.


Pedro, metodicamente, tirou o sapato, o terno, sua gravata italiana e falou baixinho, pois nunca se sabe quem está atrás da porta: a vontade de te encontrar, o motivo eu já nem sei, nem que seja só pra ficar ao teu lado, só pra ver no teu rosto, uma mensagem de amor.
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5 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

nas cidades grandes existe ET de todo tipo...

leila saads disse...

A solidão tem dessas coisas, cisma surgir mesmoq ue se coloque quilos de rotina por cima da gente.

Fernanda disse...

E assim Pedro perdia o melhor da vida...

Sunflower disse...

Life is what happens to you when you are busy making other plans.

Todo mundo sabe, mas todo mundo peca.

Patrícia Lage disse...

Me lembrei de 'Pedro Pedreiro', do Chico Buarque.

Aiai,
belíssimo!

Meu beijo.