sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Amor Analógico, por Janaina Lisboa

Querida Helena,

Eu olhava para as coisas absurdamente ridículas que as pessoas faziam e exclamava entre suspiros “essa juventude” desde que tinha uns cinco anos de idade. Ultimamente, tenho deixado tudo para lá e me dado o luxo de preocupar apenas com coisas supérfluas. Desisti de perder tempo falando sério e resolvi me comprometer a finco com bobagens. Acho que é a idade. Estou uma velha coroca, e a minha impaciência absoluta para o aprendizado formal das novas tecnologias e a tentativa de restaurar tradições são os maiores indícios disso.

Pois, a tecnologia, como todos admitem, é para crianças. Ao invés dos pais lerem os manuais quando adquirem um novo utensílio parvofeitoessencial, eles entregam nas mãos dos filhos para que descubram a origem de tudo, quebrando o paradigma essencial do qual remete que os pais devem ensinar aos filhos, pelo menos na infância e não antecipar a fase do “esse velhote trouxa não sabe de nada” que chega ao nascer dos pelos pubianos.

Lá em casa, como boas pessoas que respeitam as tradições, quando estávamos em apuros tecnológicos, gritávamos pelo auxílio de sua avó. Explico. Quando sua mãe fez a sua segunda ultrassom, seu pai estava trabalhando em São Paulo e a sua avó, na intenção que ele fizesse parte de tudo, conseguiu a façanha de diminuir o tamanho do vídeo e enviar para ele por email. Sei que tal ato pode parecer ridículo para você, mas para mim foi o meu eu-neanderthal vendo um Light Saber pela primeira vez. Espere, ainda não fique orgulhosa do talento tecnológico dela, ela chama o cabo USB de “Chupacabras”. Acredito que você deve ser familiar com a figura mitológica desse ente. Se não me engano, ele é para vocês aí do Acre o que o resto do mundo ocidental chama de “Papai Noel”.

A primeira vez que lhe vi, foi por fotos que o seu pai tirou da câmera digital e nos enviou por email. Foi assim que soube que você tinha as minhas mãos. E continuei acompanhando seu desenvolvimento pelo álbum de fotos do Orkut da sua mãe. Via que você estava cada vez mais parecida com ela.

Da segunda vez que minha mãe foi lhe visitar, ela me trouxe de presente um celular. Aparelho pelo qual mantive meus primeiros contatos com você sob a intenção de você conhecer a minha voz, antes mesmo de me conhecer (espero que isso não tenha causado nenhuma doença, nem nada), pois, cruzes, você inventou de nascer no Acre. Esse foi o terceiro telefone que tive na minha vida. Mentira. Tenho saudades e sinto um imenso carinho pelo meu primeiríssimo telefone: um aparato que consistia em duas latas conectadas por um fio. Aliás, latas foram, uma vez, o que eu conheci de mais versátil no mundo. Elas poderiam virar telefones, sapatos, e máquinas fotográficas. Era reciclar antes de saber o que era reciclagem.

Tenho medo que você perca essas coisinhas supérfluas, pois você, garotinha, nunca vai saber a emoção de ver uma foto impressa sem ter a menor noção prévia de como você tenha ficado antes.

- Ah, não ficou bom não, deleta.

Não é só disso que me atemoriza. Também temo que você não tenha medo. O medo, meu amor, é um dos instrumentos pedagógicos da maior efeito na educação infantil. Eu não sei o que seria de mim, sem a amável constipação que tenho por crescer acreditando que no banheiro estaria eternamente à espreita uma loira querendo me matar sem qualquer razão justificada. Assim como o Homem do Saco no meio da rua. Ou o palhaço que me sequestraria e que venderia meus órgãos. E também o monstro debaixo da cama. Sem esquecer da velhinha que me drogaria com doces e quitutes e depois me venderia como uma escrava em algum país estrangeiro.

Hoje, sou uma pessoa excelente por ter nutrido uma afeição confrangedora por esses temores constitucionais.

E é por isso que me subscrevi comovida, em prol ao seu ímpeto pedagógico, não ao conhecimento mais aprofundado das novas tecnologias, mas à missão de reencontrar o elemento que fez mais bem às crianças do que qualquer precipitação de ser politicamente correto: Homem do Saco. E eu não me refiro sexualmente, não. Falo do velho sujo e mal vestido com o saco cheio de crianças desobedientes que ele havia pegue no caminho. Ele precisava voltar para que você crescesse bem.

Titia ama você,

Jana

P.S: por que você não me liga do maior telefone de lata do mundo que fiz para você e discutimos e achemos graça desse trauma bobo?

4 comentários:

Ana Agridoce Levemente Apimentada disse...

Confesso:
eu sempre olhava embaixo da cama antes de dormir!

Kerolzinha disse...

E eu voltei a olhar debaixo da cama depois que a minha filha nasceu! =)
Muito bom seu texto!

Fábio disse...

Queria saber se todas as loiras que moram nos banheiros das escolas seriam a mesma. Ou se rolam várias.

Cada geração é fruto do seu tempo. Você teve a sua infância, ela terá a dela, digital e cheia de ondas eletromagnéticas no ar. Melhor ou pior depende da perspectiva.
Felizmente lá no Acre ainda deve ter muito espaço livre e relativa segurança para se brincar na rua.

Beijão.

Marcos Satoru Kawanami disse...

é..., minha velha, hoje em dia não é mais como no nosso tempo; e amanhã não será mais como hoje em dia; depois de amanhã então, nem se fale...

SINCERIDADE: hoje em dia, os textos que mais me divertem são os de Janaína Lisboa, "uma lenda do Ceará" como diria o José de Alencar em Iracema.

SINCERIDADE MESMO: seus textos têm o nível literário, e a dose de testosterona, iguais aos de Millôr Fernandes e de Luis Fernando Verissimo.

"homem tem inteligência, mulher tem intuição", dizia um marinheiro amigo meu.

pois é: vc tem cérebro de macho.

quando vc tiver tomando o chá das quintas-feiras na ABL, de cabelo branco e bengala, tomara que eu esteja lá também tomando o meu Viagra.


=D
marcos