domingo, 25 de outubro de 2009

Entre Elas: João José de Melo Franco

NAS TROMPAS DE FALOPIO

Gabrielle Falópio
cortava carnes humanas e tentava entendê-las.
Um dia, um cadáver de mulher serviu-o muito fundo,
e cheirando àquele cheiro imundo,
cortou a genital e descobriu lá uns tubos, que,
disse ele, estavam ligados ao ovário,
por onde os ovos otários vinham a dar no útero.
E lá era onde se dava o encontro fatal
com a broca masculina, bem menor e sem amor,
a penetrar o lacro instante
em que as cópias se fazem, como as fazem os mamíferos.
Trompas de Falópio,
assim as chamou em sua descrição,
sem notar, no entanto,
serem como antigos cachimbos,
onde os homens sempre fumaram algum ópio.

Ah, as Trompas de Falópio...
Caminho perigoso e de fumaças fogacentas e spilns...
Fosse eu um braço ao longo de uma aste
eu as tocaria como se fossem um pito romântico
e as fumaria a engolir seus auspícios,
o ovo da vida em meus pulmões,
a fazer transpirar os cantos mais antigos,
roubados dessa amorosa dita,
seus ópios de falópio!
E toda a negação, de que se serve o amor.


João José de Melo Franco é paulista de Barretos. Publicou o primeiro livro de poesias, Primeira Poesia, em 1979. A este, seguiram-se Esse Louco Desejo (1980) e Amor-Perfeito (1984). Nos anos 80, também escreveu e publicou livros técnicos e de pesquisa, tais como Pequeno Dicionário de Termos Literários e Dicionário Biográfico Universal Três.
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3 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

ah, este ficou legal!

por favor, 5 gramas de Latakia no meu fornilho.


paz e bem
marcos

Ana Agridoce Levemente Apimentada disse...

ópio e falópio, perfeito!!!!!!!!!!

Gabriele Fidalgo disse...

Maravilhoso.
Tão bom como ser uma mulher e ler isto.