sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Metade da Maçã / Maçã Podre, por Janaina Lisboa



Nasci.

Abri os olhos, vi o desconhecido ao meu redor. Formas e cores. Inspirei fundo e tomei o meu primeiro fôlego. Queimação e odores. Comecei a me mexer e vi que tinha um desajeitado controle. Membros. Boca, olhos, dedos, mãos, braços, pés, pernas. Eu? Eu! Meus! Eu, minha! Felicidade.

Tatear, explorar, conhecer, aprender, dominar. Vontade.

Ponho-me de pé, viro-me para o lado e reconheço. Boca, dedos, mãos, braços, pés, pernas. Iguais. Toco. Eu? Meus? Não, diferentes. Outros, d’outro. Olhos? Fechados. Seios? Não tem. Entre as pernas, diferença. Ele, eu? Não. Ele, outro. Ambiguidade.

Tatear, explorar, conhecer, aprender, dominar. Vontade.

Abriu os olhos, viu-me nua ao seu lado. Mostrei impressionada odores, formas e cores. Ele disse: são flores, animais, árvores, frutos Tudo dele. Ele pôs nome. Eu, minha? Não. Ele, meu? Não. Mostrou a cicatriz do seu lado, explicou: Eu, Eva. Eu, dele. Metade.

Tateou, explorou, conheceu, dominou. Fez a sua vontade.


Suculenta, vermelha, proibida. Por que cravei as unhas, a dividi em duas partes e ofereci para Adão? Ele me ensinou sobre posse e aceitação e, eu quis ilustrar o que é incompletude, voracidade. Não dele, mas eu e ele, nós. E o plano de fuga: errando e errantes. Cumplicidade mesmo na dificuldade.

2 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Eva pariu a Ciência.

Gabriele Fidalgo disse...

Acho que toda mulher sabe como é isso.

Gostei do ritmo, Jana.

beijos :*