quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pas exactement ce que, por Clara Arôxa

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Era para ser cotidiano, visto que a freqüência no bar é constante, a cerveja é a mesma e a nossa disposição para conversa afiada é contínua, mas não é.
Entrei no bar para desafogar a pressão do dia, para esperar pela próxima aula. As companhias eram das melhores, duas mulheres dispostas a fazer da noite que apenas começava um poço aberto de sorrisos. No entanto, você também estava lá, na mesma mesa, a do cantinho, com a mesma cerveja e a mesma companhia, tentando fazer parte de um cotidiano que tendia à normalidade. Quantas vezes já expliquei que, na minha vida, cotidiano é uma palavra sem sentido, visto que, a inexatidão das minhas vontades atropela qualquer padrão, desencaixa-se? Você sabe. Você sabe de muitas coisas e diz todas elas, em silêncio, naquele teu olhar desafiador e desentendido. Você sabe, eu sei que você sabe. E à medida que vais rindo, elas vão escapando milimetricamente e voam, até mim, me entorpecendo de qualquer droga alucinógena que fabricas ao sorrir. As tais coisas ficam sob a mesa, pairam sobre a nossa direção, como um diálogo interno, invisível, inseguro. Há um fluxo intenso de ilusão minha e escolha tua que navegam sobre as cadeiras, interditam os copos e saem da nossa boca em forma de palavras aventureiras, sabe-se lá para quem. Mas ai, nesse estágio de embriaguez, tudo se desmancha, o cigarro queima. É que tudo tende a acabar, sabe? Claro que você sabe. Você sabe que o Marlboro vai acabar e justamente por isso insiste em fumar rápido, enquanto as outras pessoas falam qualquer coisa sobre a minha intensidade, sem notar a tua. Era para ser cotidiano, era para cair na banalidade dos dias, era tanto. Te ver pode ser fato comum, mas te sentir vasculhar minhas ideias e levantar meus pés do chão é muito mais do que duas ou três linhas de uma crônica qualquer. É coisa que não se escreve, coisa que não se fala, apenas explode. É o prazer de devorar o cigarro antes que ele vire cinza, a necessidade de saber o que vem na próxima página e a delicia de descobrir-se inteira. Isso não é cotidiano, isso é dança.

Ao nosso lado, as coisas vão se repetindo. As pessoas ficam mais maleáveis devido ao álcool em excesso, amizades surgem, segredos são revelados e todo mundo acaba brindando por um motivo qualquer, a pauta do dia, o tombo da vida. Cada um vai se perdendo em si e se repetindo, em goles. Até você se repete e me dá um cardápio de ilusões, de todo preço. Bêbada, peço a mais cara só para competir com as minhas crônicas mal escritas, os amores brotados nos versos desconcertados e toda essa coisa que, agora, eu não me lembro.
As palavras estão se jogando da minha boca, sem o menor critério. Parece que elas sempre esperaram por essa hora para dar margem ao discurso certo, as intenções verdadeiras, ao que realmente transborda nessa mesa. Contudo, todas as minhas frases fugirão desse dia a dia bitolado e sem muito espaço para a vida, irão te confundir as entranhas e isso é um abismo para nós dois.

Esquece tudo isso. Volta para teu cotidiano.

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