sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Rua da Honestidade, por Janaina Lisboa

Tinha um mapa que não dizia onde me levava e jornal nas mãos. Estava completamente desatenta com a cabeça tentando desvendar as indicações do mapa e as palavras-cruzadas do jornal do dia, quando percebi, estava lá. Não tinha placa nem nada, eu só sabia, era ali.

“Um lugar extremamente perigoso”, fui avisada.

“Fique longe, muito longe dali”, me recomendaram.

“É onde as pessoas se despem do exterior”, avigoraram o conselho tentando me assustar.

Conseguiram.

Afinal, todo mundo sabe o que acontece na Rua da Honestidade, onde as pessoas botam o que está dentro pra fora. Uns interiores são horrorosos e todos se assustam e fogem; outros, inusitados e ninguém sabe como reagir, logo, apontam e riem; pouquíssimos são tão infelizmente lindos e brilhantes que quase nenhuma pessoa consegue enxergar.

Dizem que pode ser terrivelmente solitário ser bonito no lado de dentro. Quase um castigo nos dias de hoje. Eu realmente não poderia saber.

Ah, os vazios, esses sim são uns sortudos, primeiramente porque eles crescem cada vez mais, e em segundo lugar, porque quem se expõe – seja, feio, bonito ou inusitado - invariavelmente corre o grande risco de se machucar. A dor é o que faz ser tão difícil se manter leal ao que se têm dentro de si quando não se tem nada. Assim, poucos com exceção dos raros e dos loucos pisam lá. É difícil não se mostrar vazio.

Talvez se eu soubesse onde era não teria ido. Mas, tinha que encontrar uma amiga. Não tenho muitas amigas. Na maior parte do tempo, não gosto da companhia de mulheres, elas gostam de pregar esses enigmas e eu tenho muita preguiça de interpretá-los.

Parei de olhar as palavras-cruzada e tentei me localizar, achar minha amiga. Desci por uma rua de lojas. Nas vitrines as pessoas se exibiam com cartazes se vendendo:

“Detesto animais”
“Incapaz de perdoar”
“Extremamente Possessiva”
“Avarento e mal-humorado”

Achei-os lindo e chorei. Tenho tido o irritante hábito de chorar por causa de coisas honestamente bonitas ultimamente. É como se meus olhos tivessem se esquecido de como é enxergar a verdade.

Imaginei que cartaz seguraria se estivesse exposta em uma das vitrines. “Egoísta”, cheguei a rápida conclusão, pois essa amiga vai viajar para procurar a própria felicidade e eu me lembrando que ela iria me deixar, acordei triste. Não tenho muitas amigas, gosto de escolher as pessoas pelos sinais que elas mostram. Mulheres mudam de sinais tão velozmente que é quase impossível lê-los. A minha fraca leitura dinâmica mal é suficiente para conseguir acompanhar os meus, é melhor eu francamente assumir antes que a minha placa vire “Hipocrisia” que, de todos os sinais, é um dos que mais detesto.

Finalmente a encontrei. Ela estava sapatilhando no meio da praça movimentada com uma placa escrita “Amor-próprio” em simpáticas letras garrafais e vermelhas, de tinta ainda fresca.

Sentei e ela jorrou verdades. Verdades sobre ela, tão inusitadas que por um breve momento não consegui enxergar direito. Em seguida, vi que era o clarão ofuscante que precede o que é muito, muito bonito. Tentei esconder o meu sinal de “Egoísta” mas não pude, afinal, ali era a Rua das Verdades. E ela disse que estava tudo bem, sabia que podia me contar porque eu não tinha o sinal “Preconceito”, por isso apreciaria e discerniria o que poucos vêem como beleza.

Despedimos-nos. Eu não chorei por causa da beleza da honestidade ou da honraria por ter sido convidada pra estar ali, sem máscaras. Ela estava tão feliz, que apagou a palavra da minha placa e eu não pude não ficar feliz por ela. Com ela.

Hoje, tenho a placa “Humanidade”. Acho que deve ter sido uma péssima escolha, porque não vejo muita gente carregando ela.

3 comentários:

jupyhollanda disse...

de arrepiar, de tão honesto. tão humano. tão verdadeiro... e nada hipócrita e nem egoísta.

Ai como eu queria me encontrar com algumas pessoas nesta rua. ah! como eu queria.

B-JuJU

Cisticerco disse...

Esse blog de vocês é um dos melhores que conheço.
Parabéns sempre.
E parabéns para você também.
Beijos

Marcos Satoru Kawanami disse...

essa rua fica aí em Fortaleza?