quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Duas da Manhã, por Clara Arôxa

São duas da manhã, peguei o celular, pensei e repassei toda a agenda extensa de telefones. Amigos, primos, colegas, você.

Resolvi apertar aquele botãozinho verde desesperador, exatamente com seu vasto número: DDD, operadora e um apelido que te identificava só para mim. Durante os toques, pensei em que dizer, porém certa de não ser atendida devido ao avançar do horário, pois não é todo mundo que dorme quando o sol dá sinal para nascer. A cada tum me vinha uma frase oitudobemcomovai?, quesaudadeapareçaparaumcafé?, táeufaçochá. Ou um desculpateacordarnomeiodanoite, sei que tens horários regulares, trabalho, tens motivos para querer distância, tens esse medo que te paralisa etc etc etc. Mas desacostumei o meu relógio, joguei na primeira lixeira vermelha da cidade. Mais um tum e aquela dúvida se você realmente queria me atender ou se o barulho da campanhia era baixo demais para o teu sono exausto. Provavelmente presumisses minha embriaguez em algum bar cheio de fumaça, madrugada e amor, um cigarro aceso e eu te relembrando momentos tão delicados de nós dois, justamente aqueles que deveriam ser esquecidos. Outro tum e ninguém atende. Desisti e me bateu um arrependimento angustiante de um impulso inicial transloucado, tipo uma rebordosa de qualquer droga em falta, tipo um segundo que não foi bem aproveitado. Desisti.

Ainda por cima, aquela mulherzinha da telefonia me informa que nem caixa postal possui esse número. Mais um aviso teu para o meu silêncio.

No entanto, te digo, eu só queria um boa noite, vindo da tua voz doce.

Para você, o meu boa noite.

3 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Esse impulso transloucado nos deixa angustiada depois, mas, no instante inicial, é uma das coisas mais gostosas que existem!

gostei do texto, clara!

beijos ;**

Marcos Satoru Kawanami disse...

Você que faz a crônica da boemia, talvez goste de outro cronista mais antigo, que levou-me a escrever a tese "Moralismo Irônico de Noel Rosa".

Seu post lembrou:



[...]
"Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém"
(Noel Rosa)



DAMA DO CABARÉ
Noel Rosa
Composição: Noel Rosa (1936)

Foi num cabaré na Lapa
Que eu conheci você
Fumando cigarro,
Entornando champanhe no seu soirée

Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra

Em frente à porta um bom carro nos esperava
Mas você se despediu e foi pra casa a pé
No outro dia lá nos Arcos eu andava
À procura da Dama do Cabaré

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém

Thaís Nóbrega disse...

crônicas de boemia. gostei do nome. podia ser onome do teu livro!