domingo, 29 de novembro de 2009

Entre Elas: Fabiano Calixto

Com ela

ela deitada
__(arranjo: lia na ponta dos dedos como quem – às trevas – lê
__o lado esquerdo dos anjos)
linda, vestida só de sol

frágil de tão perto
indo além de todos os labirintos

meu júbilo
:
ela
deitada, vestida só de sol

tranqüila
como a água
tranqüila
nas areias de camurça

palavra dentro da palavra
incapaz de contemplá-la
em sua semântica (seda
e miosótis)

agora,
excitada, a cidade-pedra arde – pára –
a vila saliva, sua, usa a pimenta
__o sopro cálido
__hálito
__dos nossos
__corpos

lábioslábios
úmidos
– e todo o
corpo intumesce no dilúvio do outro
corpo

mamilos
(sol, sol)
mornos

– hoje seda-nos o desejo –

seu belo rosto
pupilas-avelã
do reino da
beleza – toques
(derme&dermeaderem-se)
adoram-se
corpocorpo
ccoorrppoo

aceso, o caminho
abalisa a sílaba
sugere a senda
that leads me to your delicate Elizabethan hell
hoje em minha língua o mais delicioso céu

o duplo polpudo róseo
entre tuas pernas
(róseo-aliás-vermelho,
vermelho-aliás-lilás,
lilás-aliás-crepúsculo
ou delicadeza)
como uma manhã
inchada de orvalho
sedada
em chamas
inchada
úmida charada
Ilíada a ser
desvendada
ou
(Penélope em pêlo e pólen-epifania)
penetrada

(ela é o retiro que prefiro
suspiro quando a miro
me firo, respiro, giro,
ponho e tiro)

vestida só dela, agora
guardando em seu corpo
a contra-dança da minha
malícia
deitada, quieta, bela, ela baila,
delícia da língua que eu declino
linda, linda, linda
(em ininterrupto dancing days)
tão perto, como o coração
de uma flor (um odor de
pinheiro se mescla
com folhas de rosa)
a si mesma.

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Fabiano Calixto vive em São Paulo, é mestrando em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001), Música possível (CosacNaify/7Letras, 2006) e Sangüínea (Editora 34, 2007).
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Um comentário:

Juliana Marks disse...

poema perfeito, lindo demais...