domingo, 1 de novembro de 2009

Entre Elas: Marcelo Mirisola

Banquete

Eu sei que é um baita lugar-comum. Quase uma receita da Ana Maria Braga, mas que se dane. Vou dizer: Quantas vezes não me imaginei servido num banquete para saciar a fome de meia dúzia de vampiras lúbricas e sedentas. Sobre uma larga mesa de jacarandá, eu lá em decúbito dorsal, feito um porco – com direito a maçã na boca e alface debaixo do sovaco.
Tem um filme, cujo nome agora me falta ( preguiça de ir ao google) , algo parecido com o cozinheiro, o ladrão e a mulher dele, que quase conseguiu realizar esse meu fetichezinho caseiro. No filme, o amante da mulher do cozinheiro é servido assado. Acho que é isso. A pica do cara, caída pro lado esquerdo, é cortada como se fosse um paio – e servida numa cerimônia que beira a indiferença. Tudo, porém, na maior compostura calculista. À clef. Se não me engano o diretor é Peter Greenaway . Me recordo de uma câmera que se desloca sobre divisórias. Como se o cozimento e o posterior esquartejamento do amante fosse obra deliberada pelas cores fortes, como se não fosse um filme, mas um quadro de Van Gogh sem os amarelos: apenas com os rasgos de fúria e a demência sugerida. Como se Greenaway dissesse: tem arte no meu açougue. Cláudio Assis, diretor de “Amarelo Manga”, experimentou esse defunto – e seria um pleonasmo se eu dissesse que ele usou e abusou dos amarelos que Greenaway jogou na lata do lixo.
Mas eu não queria ser assado. Se não fosse inviável porque - até onde eu saiba - não se faz sushi com carne de porco, eu queria ser servido “in natura”. Num domingão. Não sei se morto ou vivo, ainda não resolvi. Mas de pau duro, pra vocês se esbaldarem , meninas de falópios.
O lugar-comum têm dois pedidos a fazer: usem batom vermelho e sejam um pouco lésbicas.
Sou o porco caralhudo do vosso banquete. Só me resta agradecê-las, e dizer: meu sonho foi realizado; sirvam-se, lambuzem-se, bom apetite. E não briguem, minhas queridas canibais. Tem pau pra todas. Se bobear, vai ter gente que vai levar marmita pra casa. Com amor, e arte,
Marcelo Mirisola.
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Marcelo Mirisola publicou “Fátima fez os pés para mostrar na choperia” (1998); “Herói devolvido”(2000); “O azul do filho morto” (2000); “Bangalô” (2003); “O banquete (com o cartunista Caco Galhardo em 2003); “Joana a contragosto” (2005); “Notas da arrebentação” (2005); “O homem da quitinete de marfim” (2007); “Proibidão” (2008); “Animais em extinção” (2008) e "Memórias da Sauna Finlandesa" que deve sair logo logo.
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2 comentários:

Sérgio Luyz Rocha disse...

"The cook, the thief, his Wife and her lover", sem tirar nem colocar "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante" no bom e velho Português...esse é um daqueles filmes "pau pra toda obra"..

Muito bom esse texto/confissão/fetiche/projeção...muito bom.

Marcos Satoru Kawanami disse...

sirva-se vivo, senão será necrofilia.

além do mais, quê adianta ter uma experiência tão ecumênica, se não poderá depois se confessar ao presbítero de sua paróquia?


=D
marcos