sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Não podemos, meu filho, perder a próxima partida - por Janaina Lisboa

Não sei se nasci para casar ou se tenho sequer algum ossinho maternal dentro de mim. Mas, como mulher de bons princípios que sou, se alguém vier me indagar sobre as minhas convicções de status social coletivo feminino que se sobrepõe às minhas dúvidas particulares sobre como criar um garoto, concluiria com a confiança feroz de leoa que defende a cria e responderia, sem titubear com solidez inabalável e triplamente tri-exclamatória:

Que ele vá ao Estádio de Futebol!!!
Ame um time!!!
Que ele seja o Flamengo!!!

Por favor, Internet, acompanhe a minha linha de pensamento. Prometo tentar ferrenhamente produzir algum sentido, ou pelo menos continue simplesmente lendo que a história é boa por si só.

Não é a farda nem a batina que define a personalidade de um garoto, o que faz dele um gentleman é a camisa do time de futebol e o respeito que ele tem por ela. O exército se serve por obrigação, se torna padre por vocação, mas é pelo amor, pela fidelidade e pela devoção inteiramente pro bono sentidos por um time, que se mede o caráter de um homem.

Não falo da fúria irrefreável de Hooligans "extazyados" e tampouco cito esses cu-de-rola que se dizem jogadores de hoje como exemplo. Quando afirmo o que digo sobre edificar um menino a ser uma boa construção espetacular de homem, usando o futebol como alicerce, penso em um nome apenas: João de Menezes Cantuária.

Elezinho, o mineiro fundador do São Cristovão de Futebol e Regatas (o São Cri-cri) e jogador modelo para qualquer time desse mundão de meu Deus. Quem teve o deleite de testemunhá-lo durante uma partida assevera que, ao contrário de Edmundo, enquanto ele lutava pelo seu time com uma passionalidade admirável, driblando a todos, Cantuária foi um cavalheiro nos gramados. Fora deles também.

Além disso, dizem os mais sábios em assuntos futebolíscos que ele apenas vestia branco. Apaixonado e fiel, Cantuária achava um ultraje trajar qualquer peça de roupa que não remetesse o uniforme do time do seu coração.

O cavalheiro dos estádios padeceu na flor de sua juventude, como é de regra com os heróis e mártires. No ano 1918, início do torneio do campeonato carioca, na cidade do Rio de Janeiro, ele foi acometido por um surto da gripe espanhola.

Nosso guerreiro tinha apenas 24 anos quando contraiu a funesta. Um negócio tão horroroso que desejo apenas para meus medianos e piores desafetos. Mas, o herói não caiu do cavalo, quero dizer, não saiu do campo. Sua paixão pelo São Cri-Cri era maior até que a terrível enfermidade. E é agora que a história irá ganhar contornos épicos.

Já com os sintomas da gripe bastante avançados, o ídolo fez questão de entrar em campo para defender o São Cristovão em partida sem importância contra o Bangu. Declarou que a possibilidade de morrer não eliminaria, nem por um momento, o dever e a delícia de defender o seu time. Vestiu, então, a camisa e jogou como se fosse a última vez da sua vida. E, infelizmente, foi. Ele juntou as chuteiras dezenove dias após àquele jogo.

Nos últimos suspiros, o doutor indagou se ele tinha algum recado a mandar para familiares e amigos. Cantuária negou e solicitou apenas que passassem uma mensagem aos jogadores do São Cristovão:

- Não podemos perder a próxima partida.


Essa história, até hoje, me comove o âmago, pois não a aprendi em livros e sim, através das vozes de entes (alguns já falecidos) flamenguistas, que me puseram no colo e nunca conseguiram me fazer entender o porquê de um gol ser impedido, mas me fizeram amar João de Menezes Cantuária pela sua atitude, narrando seus últimos momentos em seus eternamente renascidos arrebatamentos. Logo, não tenho um epílogo mais perfeito do que as palavras de Luiz Antônio Simas em seu ridiculamente bem escrito texto sobre o mesmo:

Digo isso, amigos, com seriedade – o assunto não comporta piadas – para lamentar a morte da honra e da valentia nos gramados e na vida. Não há mais Cantuárias. O que vemos são jogadores descompromissados com o clube, desconhecedores de que vestir uma camisa é exaltar a valentia dos seus vivos e honrar a memória dos seus mortos. A camisa de um clube é uma farda que deve ser envergada com o compromisso e a dignidade das consagrações da cavalaria andante.

Esses merdas, milionários e escrotos, não têm a dimensão da epopéia e o sentido trágico da vida que marcou o martírio de João Cantuária. A mesma entrega, a mesma paixão e o mesmo fogo que levaram um altaneiro comandante Che Guevara a morrer na selva boliviana com a insuperável certeza de que ele, a vítima, era e sempre será moralmente maior que seu carrasco. Eu falo, senhores, de homens que entendem a desimportância de suas vidas e a magnitude maior de suas causas. Homens de princípios.

Acendo minha vela no altar da pátria ao meu herói, João de Menezes Cantuária. Visto a camisa do São Cristóvão e digo que o guerreiro nunca perecerá. Um dia, se a dádiva da despedida me for concedida, espero virar para os filhos dos meus filhos e repetir a frase, a única frase, que justifica, eleva e consola: “Não podemos perder a próxima partida”.