sábado, 7 de novembro de 2009

Por onde crio o que abriga-me, por Patrícia Lage

“A minha casa está onde está o meu coração.
Ele muda, minha casa não.”
Skank


Nessa reunião de tempos, um único de repente de mudança: eu quis ter a minha casa. Para habitar os meus outros quereres, meus sons, meus instrumentos banais, meus temporais. Tecer as paredes com meus dizeres para acarinhar, finalmente, os meus costumes, dar lugar aos azedumes que já não agüentam mais e que tanto gosto; os meus viés, minhas marés, os meus pés. Minha casa de ares tantos, de braços e pernas e cantos, meu acalanto. E reconhecer as cores das posses minhas, o que é meu e sempre todo foi.

E bastava que eu mesma construísse, com o fado que trago nas veias, a minha casa enraizada nos meus ideais, nos meus suspiros escondidos, nos meus desejos ancestrais. Os pertences jogados, recusados... Meus. Minha casa merecida, conjugada por mim - filha de crenças contraditórias, de idéias mortas, de porto náufrago vazio – meus passos-raízes.

Mas minha casa eu quis e faço num mesmo instante, enquanto vejo-me diante de mim, um eu astuto e cheio de cicatriz. Porque eu morei em tanto corpo que não me pertenceu... Já fui de quem nem perto chegou... Os desencaixes feriram e inauguraram certas lições e, de desabrigo em desabrigo, era estrela no alto e sorriso escondido, embasando minhas dores passageiras. Minha casa sou eu, este ser recém começado, é em mim que carrego o que me continua, sou quem dá abrigo às minhas aventuras e as reconheço, as aceito e invento outras inlusões. Tenho eu uma garagem nas mãos, e são os meus dedos o meu passaporte em invasão. Minha casa tem o endereço da direção dos olhos, estes que faço nascer em sentidos. Voltada para mim, minha casa que abrigo. Que haja o agora – construção de meu lar que é de urgência, e eu já não espero mais.

Um comentário:

Sunflower disse...

Aunnnnnnnnnnnnnnnnn.

Você é uma linda!