terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tem Maré que Derrama, por Samantha Abreu

foto de ellen von unwerth
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Eu nunca acreditei no tal do azar-marcado, mas tem coisas que acontecem na vida pra fazer a gente se perguntar por que cargas d’água somos escolhidos pra pagar mico. Tanta gente no mundo... por que logo eu?

Eu já tava numa maré pesada: sem grana, tintura com cinco dedos de raiz, com cpf em todos os órgãos de siglas negativadoras, depilação em atraso, cumprindo aviso-prévio, tinha levado um pé na bunda do meu melhor fuck-friend de todos os tempos, meus pais se separando depois de velhos, carro na oficina, pendurada na faculdade e mais algumas barbaridades que não me convém comentar. Aí, o que eu, nessa situação, poderia esperar de pior? Mas é como dizem: nada é tão ruim que não possa piorar. Eu era sapata e não sabia. Não que eu tenha algo contra elas, muito pelo contrário. Pra ser mais clara, o problema não era ser sapata, a merda era ser sapata, namorada de um gay, e não saber. Podia ser tanta coisa... corna, gordinha, pobre, morar longe, burra. Mas lésbica namorada de um gay? E sem saber?

Eu tinha um caso multicores com o Leo há alguns meses e era delicioso. Toda a liberdade do mundo acompanhada de toda a diversão e prazer do universo. Mas como tudo o que bom acaba, acabou. Foi então que eu, desertada e querendo me apegar a qualquer sinal de mimo a mim dispensado, conheci o Edu.
Edu era ótimo. Divertido, enturmado, carinhoso. Só tinha um problema: não era o que se pode dizer de um cara ‘chegado na coisa’, só que de várias formas me saciava a necessidade de carinho e atenção na qual eu me encontrava, além de me inflar o ego como ninguém. Batata! Não demorou e eu me apeguei.
Ninguém se conforma, até hoje, com minha cegueira. Nem eu. O fato é que o Edu era um pouco, talvez mais que um pouco, afeminado. Adorava ir ao shopping e passava horas comigo vendo vitrines, opinando modelos, sugerindo cores. Companheiríssimo, mas eu queria sexo, simples assim. E Edu dava carinho. Eu queria sexo, Edu dava atenção. Eu queria sexo, Edu dava presente.
Um dia, cheguei da faculdade vi o carro do Edu e notei a casa aberta, luzes acesas, barulhos. Quando entrei, ele estava usando meu vestido de festa, se maquiando no espelho do banheiro. Tive uma crise incontrolável de riso-pânico. Riso pânico é o pior tipo de riso que existe, é daqueles desesperadores, que você não quer parar de rir pra não começar a chorar. Botei Edu pra correr.
Só então, depois de alguns meses, eu soube que Edu já tomava até hormônio pra crescer peitinho, crescer cabelo e que queria ser mulher. Mas ele sempre deixava claro que gostava era de uma buceta. Queria ser mulher, mas gostava de mulher. Ou seja, era um homem querendo ser lésbica. E eu, a namorada.Já não sei mais quantos tipos de piada ouvi com meu nome, quantas vezes contaram essa história nas mesas de bar e quantas gracinhas ainda ouvirei pela vida afora. Só aprendi que por mais negra que seja uma nuvem, ela ainda pode ter a chuva ácida.

Edu, hoje, é uma quase-mulher e se chama Julia. Depila a barba e o peito, mas ainda garante que gosta de mulher. Há quem acredite, só que propaganda falsa ele não faz mais.
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6 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Eu lamento pela separação de seus pais.
Minha tia Albina separou-se do marido em 1997, e eu fiquei fazendo mó pressão pra ela voltar pra ele durante 8 anos, até que eles voltaram a ser um casal feliz em 2005, depois dos dois terem mais de 60 anos.
Agora, tia Albina e tio Otanício têm os netos João Pedro (3 anos), Caio César (5 meses) e Maria Eduarda que está no bico da cegonha. São vovó e vovô como manda o almanaque.

a clara menina Clara disse...

hahahaha
acho que isso é uma das piores coisas que pode acontecer a uma mulher. Amigo gay é uma delícia, mas namorado é um pouco pesado.

Cisticerco disse...

Rsrsrsrsrsrsrsrs...
Que bárbaro.
E eu que achava que tinha problemas!!

O máximo seu post.
Beijos (não sou gay).

Samantha Abreu disse...

Owww, Marcos, querido.
Eu agradeço, mas, por favor, nunca lamente o que um escritor escreve.
É confundir literatura com vida real.

ps: ainda mais se tratando dessas "Mulheres sob Descontrole".

BeijOs!

Lisa Alves disse...

é no final vc pode ter ganhado uma melhor amiga. rs

Marcos Satoru Kawanami disse...

Samantha,

A estória é fantasiosa, mas eu acreditei que fosse real porque eu me casei com uma sapatão, e a converti ao catolicismo otodoxo que é chegado em caralho por parte das piguanchas, e em xereca por parte dos baguais.

Mesmo assim, eu ainda tenho tesão pela indumentária das moças do sapato grande: camisa polo, bermuda regata, tênis de futsal. Gosto muito.


pax et bonum
Marcos