domingo, 20 de dezembro de 2009

Entre Elas: Fabrício Carpinejar

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O QUE O HOMEM DEVERIA ENXERGAR
especial para Versos de Falópio
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Uma faxineira me contou.
Ela demorou muito tempo para entender a insatisfação de sua patroa.
Lavava, arrumava, ordenava com esmero e recebia alguma reclamação sobre a falta de capricho no fim do expediente.
Da onde tirava essa conclusão?
Ela já confiava na hipótese de que não recebia elogio de propósito, para não se acomodar, que era um método de superação. Ou uma maldade produtiva.
Ameaçou largar o endereço, desistir de convencê-la da injustiça, reclamou ao marido a tortura de viver esmolando elogio.
Mas ela acabou capturando o motivo da cisma constante e semanal. Libertou-se da dúvida.
A patroa não vistoriava a casa, não observava o conjunto, não conferia o chão ou as roupas dobradas. Talvez nem fiscalizasse o pó das mesas. Reparava em um único detalhe: os interruptores de luz. Se apareciam brancos e brilhantes, tomava como princípio que o trabalho foi bem feito. Quem lavava o interruptor pensaria em todo o resto. Logo ao acender a luz, a dona da residência aprovava ou criticava o serviço. Nem lançava as pupilas pelos aposentos.
Essa percepção da patroa, que elege o ínfimo como senha da limpeza, e o cuidado da faxineira, que compreende a mensagem invisível, revelam as sutilezas femininas.
O homem deveria ficar mais distraído. Só a distração nos conduz ao indispensável.
Por exemplo, eu enlouqueço com mulher que mexe os brincos no meio de uma conversa. Há um desinteresse charmoso nesta atitude. Quase um desprezo desafiador. Redobro as gentilezas. Ofereço o que ela não ousou pedir. Sinto que vou perdê-la no próximo instante, que algo que lembrou supera a minha voz.
Para me torturar, ela vira o pescoço sutilmente ao lado. Tal apresentadora atendendo a um ponto dos produtores.
Não posso acusá-la de indiferença - mantém os olhos no meu rosto.
Comemoro sua sofisticação, a complexidade dissimulada. Concluo que esteja conversando com seus demônios. E que o demônio no ombro direito ameaça, bem desaforado:
- É sempre dia para o corpo. Vai, abraça esse canalha!
Já a percebo como uma feiticeira, uma bruxa, uma doida, que está definindo sua vida tocando as curvas do lóbulo. É o detalhe que decide. O detalhe conspira, inunda, confunde. Ela diz sim a partir dos ouvidos mais do que da boca. O ouvido tem que gostar de mim.
Por isso minha escola são os interruptores de luz: uma mulher fica realmente nua quando tira os brincos.
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Fabrício Carpinejar nasceu em 1972, em Caxias do Sul (RS). É poeta, cronista, jornalista e professor, autor de treze livros, oito de poesia. Sua coletânea "Canalha!" (Bertrand Brasil) venceu o 51º Prêmio Jabuti/2009. Está lançando o primeiro livro no Brasil com frases do twitter (Bertrand Brasil, 2009), reunião de mais de 400 máximas e aforismos. Carpinejar apresenta o programa “Escrita Fina” na Rádio Unisinos FM 103.3, de entrevista com escritores, e dá dicas culturais na Rádio Itapema FM 102.3, no programa ABOADICA. Desde outubro de 2005, escreve o Consultório Poético, no condomínio da Globo (Bloglog). É colunista da revista mensal Crescer, de São Paulo, e colaborador de jornais como Zero Hora e O Estado de São Paulo e de revistas como Caras, Cláudia e Cultura.
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4 comentários:

Ferrito disse...

Carpinejar e suas mulheres metonímicas... Encontrei uma dessas anteontem. Pena que, para mim, ela não tirou o brinco. Digo... Aquele "brinco" é apenas metonímia, não?! rs...

Lais Mouriê disse...

Sensacional, é só o que posso dizer! Presença honrosa entre nós!

jupyhollanda disse...

muito honrosa mesmo!!!

Sunflower disse...

eu tiro logo os brincos. Tiro mesmo.