domingo, 6 de dezembro de 2009

Entre Elas: Ronaldo Ferrito

A via excêntrica
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__A vocação do peregrino não é a sua meta final, o paraíso que busca; mas manifestar o céu no aparecimento de todo caminho. Em vista disso, podemos dizer que onde os pés firmam é, porém, o firmamento; onde não firmam, não vale a pena estar. À passagem desse viandante todo espaço calcado se lança no ressurgimento e, por isso, renascimento de seu destino celeste; pois o itinerário metafísico que conduziria o viajante por uma estrada previsível e passível de mapeamento, levando-o sem surpresas a um outro lugar também já concebido, abre-se para uma nova via, na qual o fim teleológico de seu antigo trajeto – buscado na sucessão conseqüente de toda viagem que quer chegar – é renunciado na força renovadora de um outro sentido, mais pleno e realizador. A revelação desse segundo caminho – único capaz de modificar aquele que o atravessa – se dá no empenho de ter, no salto dos pés, seu sentido manifesto; de modo que o caminheiro seja também a condição de realização do caminho. Na peregrinação, a travessia e o viajante não se estabelecem previamente, mas se imbricam na reunião de uma caminhada, na qual o destino de ambos se faz no seu desconhecimento mútuo (vejamos que nenhum auto-conhecimento é permitido), experienciado no espanto modificador do que devemos chamar sobressalto. Sobressaltar é, pois, ter sob os pés a abertura capaz de levar-nos aonde ainda não pisamos, aonde ainda não sabemos como pisar, embora estejamos firmes no princípio de possibilidade das realizações. Lembro-me agora de um andarilho de Florença que se deixou conduzir, por primeiro, aos infernos, o mais inferus dos abismos (aqui também infero – para onde nada é possível levar, de onde nada é possível reter), pelo desejo de encontrar, já quando toda perdição o eximia de sua antiga vida, a transformação (convertio) nos páramos do pensamento, ou simplesmente: a sua santa Beatriz.
__Para Dante, era imperiosa a tarefa de realizar sua obra, ou atravessá-la, pelo deslocamento da elevação; somente assim que, pela conversão de cada verso, poderia renunciar a um sentido preconcebido para o estabelecimento de sua poesia, revelando, por isso, a experiência concreta da perdição que o envolvia no desconhecido de sua obra. Por conseguinte, não pôde evitar que até mesmo lá, onde o caminho surgia de seu próprio passo, necessitasse de guia: um para ensinar-lhe até onde pode levar o fundamento que desde sempre como poeta soube (a tradição de Virgílio) e outro para mostrar-lhe o que no mistério de sua obra poderia transformá-lo (o céu, Beatriz). O pensamento, dado pela linguagem, convoca-o para uma outra vida cujos fundamentos permanecem sempre ocultos no que ainda não se revelou por completo à sua frente, a atualização de um mistério a cada vez renovado. Por muitas vezes no Paraíso, o poeta declara não saber como descrever o que via ao fim de sua obra, mas que poderia ter certeza de que habitava o lugar da origem de toda e qualquer criação, o mistério da encarnação do deus era para ele também o mistério da encarnação de sua obra e travessia celeste.
__É necessário, embora também evidente, declararmos a esta altura que, nesta via excêntrica (poética na qual pensamos as obras de linguagem), caminho e obra são um só e que, a partir de agora, quando pensarmos um deles na complexidade de suas imagens e elementos, estaremos pensando simultaneamente o outro, não em uma relação metafórica, mas em sua identidade essencial. Obra é, aqui, caminho e peregrinação.


RONALDO FERRITO é poeta, ensaísta e editor da
revista Confraria. Participou de algumas antologias de ficções e poemas e publica com freqüência em revistas eletrônicas. É ganhador da bolsa FBN deste ano para escritores com obra em fase de conclusão, na categoria ensaio literário, com o seu livro 'A via excêntrica' (do qual se lê o fragmento acima, e que foi publicada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil - Fundação Biblioteca Nacional - Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura)
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Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

ninguém comenta por quê? cazzo, o cara ganha a bolsa Filho da Boa Nona, e ninguém chum...

a rapeize só quer que a rapeize recomente, é a porra mesmo.


Zé Ninguém