sábado, 5 de dezembro de 2009

A noite mais quente do ano, por Patrícia Lage

Para Mário Bortolotto.

Nos últimos segundos, eu faria
tudo por uma voz invocando outros
mundos que casem com esses infernos amarelos
e tornem as mentiras oblíquas do dia
sentenças nascidas de pura realidade.
Se a encontrasse cara a cara faltando
um palmo, um palco
lhe tiraria os sapatos num vagar
de minutos corridos.
Diria oi, como vai, sente aqui
Quando foi que deixou a palavra
aliviar tuas aliterações e ir?
Porque aos meus olhos – ouvidos na noite - chegou há um tempo...
E não sei especificar o momento da madrugada, mas
guardo as sensações reservadas
às composições vindas daí, atingidas aqui.
Divide uma vodka comigo?

Tirar os sapatos dessa voz pra me acompanhar num blues
e interromper o guardanapo essa meia dúzia de escritos.

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PS: Não, este post não é inspirado no acontecimento dessa madrugada. Não, eu não o escrevi porque o Mário Bortolotto levou uns tiros num assalto estúpido. Não é nenhuma tentativa de praticar uma homengem porque eu reconheço certos valores antes mesmo que a pessoa corra risco de morte. Sim, eu o escrevi nesta última quarta-feira, assim que cheguei da rua, do bar em que estava com dois amigos após assistir à peça em que o Mário atuou. Ele estava no bar também e de uma forma não peculiar mas ainda muito praticada, o comuniquei sobre este post de sábado. Encomendei-me um texto para dedicar a ele, fruto de uma paixãozinha platônica e admiração imensa pela arte que ele defende. E sim, estou triste, muito. Essa vida é mesmo, certas vezes, uma ironia indiscutivelmente sem graça.

Um comentário:

.raphael. disse...

da noite mais quente do ano para guardanapos anotados e não correspondidos!

Salve MB! Salve o teatro tb!