quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Outonos dezembros, Por Lais Mouriê


Você é um abismo. E eu uma folha oscilante que adora voar. Aquelas folhas de outono, meio verdes, meio secas, retratadas nos meus olhos indefinivelmente sem cor. Ter nascido em Abril me fez folha. E me apaixonar por você em Dezembro te fez cume. E esse contato abismal nos fez brisa. Impropérios que nunca mais poderão ser ditos. Dezembros que não terão lugar nas realidades estatísticas de nossos futuros. Solidões de mãos dadas com a saudade.
Você é um abismo que apaixonadamente demorei revelar. Temia a morte risonha que me perscrutava, a felicidade ténue que me apontava nossa finitude e o Dezembro amaldiçoado que, como outrora, inadvertidamente, penetrei. Não dei ouvidos às previsões zodíacas que me mandavam ficar em casa, janelas e portas fechadas, mudez e atitude contra a contravenção do amor.
Eu sou uma folha branca e deflorada. Com a fome do pólen e da primavera. Danço pelo ar, arrastada pelo vento, castigada pela chuva e forçosamente queimada pelo sol de verão. Passeio em seu abismo como se soubesse que nele me espera o chão. Mas seu buraco é mais negro e seu chão é apenas uma branca nuvem por onde eu transpasso facilmente, em direção ao nada.
Estou confusa e louca, abismo e folha-quase-seca. Estou apaixonada por mais um Dezembro.