sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Soletrando com Toquinho, por Janaina Lisboa

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Acredito ter por volta dos sete anos quando eu ganhei o melhor presente de natal que uma garotinha poderia ganhar. Uma bicicleta nova. E não era uma bicicletinha qualquer. Oh, não. Também não era a bicicleta mais legal do conjunto, nem da cidade, ou do país... era simplesmente a bicicleta mais legal do mundo inteiro!

Ela veio para ocupar o lugar da antiga, qual eu vivia reclamando, pois era minúscula cor-de-rosa, cheia de adesivos frescos da Moranguinho, com cestinha e fitinhas no guidon, não era nada veloz (nem podia, se arrastava pesada equipada de tantas firulas) e ainda por cima de tudo tinha malditas rodinhas de plástico para me dar suporte e equilíbrio, ou seja, a bicicleta mal podia superar o status de velocípede e eu me sentia deixada para trás.

Naquele ano, disse para o Papai Noel que ele podia esquecer-se da minha Caloi, pulássemos essa fase e que ele me desse logo uma BMX. Pois, nasci proveniente da linhagem de menininhas que não entendiam o porquê de pedir um pônei quando divertido mesmo era cavalgar um Pegasus.

Falemos agora da minha incrível bicicleta nova. Ela era uma bicicleta de criança grande. De um vermelho brilhante e detalhes cromados, ela poderia ser tão rápida quanto os meus pequenos pés pudessem pedalar. Isto é, se eles conseguissem alcançar os pedais e assim que eu aprendesse a me equilibrar. A bicicleta não fazia a menor vergonha perante as bicicletas dos outros meninos, até porque só os meninos tinham uma bicicleta parecida com a minha e essa era exatamente a minha intenção. É que até mesmo naquela época, eu sabia que, de alguma forma, eu deveria impressioná-los. Foi quando resolvi mostrar os poderes do meu veículo. Vi um grupo de meninos que moravam perto da minha casa e, tomada por um sentimento Evel Knievel, comecei a pedalar na direção deles até alcançar uma velocidade decente, cheguei próximo o suficiente para mostrar uma manobra nova e brilhante e... falhei espetacularmente.

Tentei levantar o pneu da frente, mas, as minhas mãos suadas escorregaram e ao invés de erguer a bicicleta, me atirei para trás, caindo de costas, atingindo o asfalto com extrema força. Mas, passei fino do sucesso. Quero dizer, a falha da execução para uma manobra perfeita foi por uma questão de meros segundos, pois estava deitada no chão sem ar, com os olhos bem arregalados para assistir a minha bicicleta voando e aterrizando bem em cima de mim.

E lá no asfalto, continuei prostrada, esmagada pelo peso da bicicleta, da dor, do susto, da vergonha e do maravilhamento. Tentando entender a música do Toquinho que tocava no fundo da minha cabeça.

"B-I-C-I-C-L-E-T-A
Sou sua amiga bicicleta."

Até que eu ouvi uma buzina.

Imagine você dirigindo pela sua vizinhança e encontra uma garotinha de sete anos, cuja pele branca se contrasta com o negro do asfalto e o vermelho do sangue dos arranhões e da bicicleta caída por cima dela, o que você faria?

Esse fantástico cidadão em seu Opala azul buzinou para que eu saísse de seu caminho.

Apavorada que eu tivesse me metido em confusão por estar deitada na rua, arrastei-me até o meio-fio, carregando a minha agora não-tão-extraordinário BMX, desobstruindo a passagem do carro. O motorista nem sequer baixou o vidro para perguntar se eu estava bem.

Se os garotos ajudaram? Respondo essa pergunta com outra: eu tinha seios e quadris arredondados nessa época? E, mesmo assim, se fosse no Ceará eles não perderiam a oportunidade vaiar. Infelizmente, é a voz da experiência que constata a última afirmação.

Moral da estória: doze anos mais tarde aprendi que se você quer fazer truques que impressione os garotos, você não precisa de absolutamente mais nada do que o seu equipamento original de fábrica entre as pernas.

Hoje, canto a música do Toquinho de forma diferente, vamos lá garotas, cantem comigo:

"B-U-C- ..."

2 comentários:

Cisticerco disse...

Uma BMX? rsrs
Era um BMX Pantera? Com rodas de nylon?
A melhor bicicleta do mundo inteiro. Tenho que concordar...
Beijos...

Marcos Satoru Kawanami disse...

o guidon da minha Caloi Cross tava frouxo, eu tomei um estabaco que lembro até hoje ao me olhar no espelho pra fazer a barba.
tinha 10 anos, e ralei a cara no asfalto por mais de um metro com todo o peso do corpo apoiado nela.