sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Dormindo Acordada, por Janaina Lisboa

Quando eu era maravilhosamente menor do que sou hoje, nas manhãs de domingo, quando minha mãe ainda teria aquelas preciosas horas de sono antes do começo do dia, eu chegava mais acesa que o sol e a entregava meu último livro favorito e a metralhava com perguntas para ter certeza que ela estava prestando atenção:
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- Quem comeu o mingau dos três ursos?
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Minha mãe escondia a cabeça debaixo do travesseiro, eu a acharia e, aos poucos, ela cedia:
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- Robin Hood?
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- NÃO!
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- O motorista de táxi??

- NÃO!!!
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Levava aquilo com a seriedade da minha vida. Eventualmente, crescemos. Pensamos que livros infantis são bobos, irrealidades acontecidas apenas há muito tempo atrás em um reino bem distante daqui. Nada plausíveis, e muito menos aqui e agora.
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Mas, ao observamos bem de perto... sempre haverá uma garota de torturantemente lindos cachos dourados que irá comer o mingau e dormirá nas camas que preparamos com tanto amor e carinho. Algumas pessoas se disfarçarão de velhinhas boazinhas e trarão maçãs envenenadas. Alguns outros lhe chamarão de estúpido por ter trocado uma vaca por sementes, sementes vendidas sob a promessa que o levarão através das nuvens para a galinha que põe ovos de ouro.
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E somos um pouco de cada. Uma Cinderela que limpa a sujeira deixada pelos os outros, Alice perseguindo o coelho branco, seja ele, sabedoria, sonhos, amor, já que a persistência é o que nos mantém vivos. Pinoccio procurando a fada azul afim de tornar-se algo que ele não é, ignorando o que a consciência lhe fala. Chapeuzinho Vermelho tentando achar um caminho mais curto e terminar tendo que lutar com o Lobo Mau. Bela Adormecida que não faz nada além de esperar ser despertada.
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Talvez seja isso: passamos nossas vidas a espera, a procura de um beijo, de algo que nos desperte com um ridículo bom humor de nossa eterna dormência.Há várias maneiras de se sentir despertada. Um abraço amigo, uma mão estranha, um encontro com mar, um raio solar que toca a sua face anunciando o fim do inverno e o começo da primavera, uma canção, uma cena, um trecho de um livro, uma memória das manhãs de domingo da época que você era maravilhosamente menor do que é hoje.
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Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

escrever para a infância é difícil pois há que se abordar temas que realmente importam, com vocabulário simples; enquanto que escreve-se para adultos pautando temas mormente superficiais, com vasta opção lexical.

bem-me-quer