domingo, 17 de janeiro de 2010

Entre Elas: Márcio Américo

WALK ON THE WILD SIDE

Às vezes eu paro tudo que tô fazendo e olho pra minha memória, dou uma geral como uma velha faxineira em seu último dia, vasculho tudo. Sempre me deparo com uma imagem: eu, sozinho, de madrugada, caminhando pelas ruas de Londrina, a chuva como napalm. Lembro de imagens que me acompanhavam neste tempo. Uma selva vietnamita em chamas ao som dos Doors, um jovem atirando-se de cabeça num lago e saindo de lá me desejando um feliz ano velho, James Dean morto em cuba, um garçom me oferecendo sangue de coca cola, garotas do Mãe de Deus sentadas nas escadarias escondendo a calcinha dos meus olhos, o último ônibus partindo e a chuva. Era um tempo em que eu desejava morar num velho prédio de inquilinos derrotados, bebendo com um carteiro metido a poeta, quando eu só queria uma máquina de escrever emperrada pela areia do deserto de Mojave e Santa Ana, uma carta de minha mãe rezando alone numa cidade coberta pela neve. Lembro claramente da enxurrada entrando em meus sapatos furados e eu desejando uma moto e uma free way qualquer, um magnum 44 pra apontar pro espelho e dizer: are you talk to me? Me via um boxer gordo e orgulhoso demais pra encarar a lona, um garoto jogado numa prisão agrícola comendo ovos cozidos numa aposta maluca. A chuva não pára. Molhado, eu caminhava pensando em ligar pra ela. Nunca ligava. Um parnasiano apaixonado e indignado por não saber os meandros da sedução. Atrapalhando-me com as palavras, dando bandeira em coquetéis enquanto ela caía fora. Pensava em poemas mortos, em pop stars gordos, barbudos, entrando numa banheira suicida em Paris, num irmão distante precisando ouvir de minha boca uma frase que nunca saía. Sempre gostei de andar sozinho, à noite, na chuva. Podia me ver numa cidadezinha, num pequeno aeroporto simulando uma despedida com classe e remorso, podia me ver enfrentando um barman gordo e sádico a troco de um gole, de um misto quente. Agora estou em casa, protegido da chuva, eu a vejo da janela, no aconchego, agora tenho com quem conversar em silêncio. Não tenho mais uma Olivetti, não troco papéis ou escuto reclamações do barulho das teclas ensurdecendo meus pais. Olho no espelho e parece que vejo um cantor de rock’n roll inchado de medicamentos suspeitos, prisioneiro de um coronel sem farda, um samurai empunhando inutilmente sua desonrosa bokan. Não me chamam pros bares, não preciso mais andar a pé. Parece que naquela noite havia uma orquestra invisível me acompanhando, detonando árias ensurdecedoras, Dvorak. Não tem mais chuva. Não há mais brigas nas calçadas, não invado casa de amigos e nunca mais vi uma arma apontada pra minha cara magra e ossuda. Tento recuperar aquela noite, o que sobrou dela, dos amigos que antecederam aquela caminhada, da prosaica ficha telefônica, do anacrônico LP sob o braço endereçado a uma reconciliação desejada e inevitável. Parece que estou exilado, uma ilha de Santa Helena financiada pela caixa econômica federal. Eu sei que não morri, ainda estão rolando os dados, o traidor não vai se enforcar, e não haverá bandeiras desfraldando-se, mas eu insisto, abro a geladeira de madrugada e faço um piquenique com meu cachorro, ela me chama. Salvo mais uma vez. Há momentos em que penso em voltar pra chuva, sair lá na rua, chutar algumas poças, esmurrar orelhões, assaltar um carrinho de cachorro quente, mas os tempos são outros, e tem sempre alguém me dizendo: não esqueça de levar o guarda-chuva.


Marcio Américo nasceu em Londrina há 46 anos, é escritor, ator, dramaturgo e poeta. É casado com a Renata e tem um filho chamado Mateus. É fã de Fante e nao gosta de Miojo.
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2 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

o filme do Lula parece até uma idéia do Paul Joseph Goebbels, é ou não é?

Marguerita disse...

"Os velhos tempos sem tantas regras, mas com amarras mentais."

Gostei da narrativa.

Bj