domingo, 31 de janeiro de 2010

Entre Elas: Marco Vasques

Dias de Visitas
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Assim digo a vocês, se vocês não mudarem e ficarem parecidos com crianças, como esta,
vocês não vão entrar no reino dos céus.
(Jesus Cristo)
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Dia de chuva. Dia de visita? Não sei. Aqui dentro o tempo é medido pela claridade das janelas. À noite é mais difícil detectar as horas. Por isso sempre mais agonizante. Sem controle. O excesso de remédios nos faz perder parte do tempo. O que se passa aqui dentro. As horas. Pessoas entrando e saindo. Muitos leitos. Somos muitos. Não saberia dizer quantos. Uma fileira para cá. Outra para lá. As visitas são quase diárias. Hoje, ninguém. Um soluço. Coloco a cabeça por debaixo do lençol branco. Abafo o choro. Muita gente. O menino do lado ganhou maçãs belíssimas. Sucos. Pensei: isso é só no começo. Talvez me engane. Existem os pontuais. O trânsito é intenso. Muitas falas. Como passou o dia? Tem comido? Estão tratando você bem? A enfermeira é carinhosa? Muitas dores? Se sente melhor? Uma confusão de vozes se intercalando. O menino ao lado solta umas lágrimas. Sua mãe passa a mão pelos cabelos. Você vai sair logo daqui. Mentira! Estamos aqui há muito. Aperto no coração. Um entra-e-sai. Muitos presentes. Um traz uma televisão para passar o tempo. Um brinquedo. Um rádio. Os alimentos vão se transformando, se impondo. Em cada cômoda, um amontoado. A minha, vazia. Frutas. Bolachas. Sucos. Bombons. Doces. Um perfume diferente no ar. Continuo soluçando. Filhos-de-uma-puta! Por que não morrem todos? Um mundo de pessoas lá fora. E eu? Ninguém para dar um beijo. E os amigos da escola? Os primos? Os irmãos? Os pais? Todos muito ocupados. O mundo. O tempo. A ausência se torna nula. A senhora ao lado olha. Olha com piedade. Viro o rosto. Tenho raiva. No fundo sempre tive esperança. Uma hora de visitas. Ficava acelerado até os últimos minutos. Será que alguém entrará agora? Um rosto conhecido? E se mamãe aparecesse? Ou meu irmão? Alguém para limpar minhas lágrimas. Para que se tem uma família, afinal? Risos ao meu lado. Todos com seu momento de ilusão. Os minutos finais. Os minutos que antecedem a saída dos parentes e amigos. Muito choro. Muitos se arrebentam. Um mundo de enfermeiras entra. Tentam controlar os mais exaltados. Arrebentam o soro. Um desespero. Eu já estou resignado. Estou farto. Um mundo de desesperados. Lágrimas. Soluços. Berros. Tempo. Silêncio. Outros dias de visitas. As mesmas perguntas. As mesmas lamentações. Os mesmos odores. Pessoas. Perfumes. Lágrimas. Aqui, em nossa ala, só aumentam os doentes. Ninguém sairá daqui. A morte leva um e outro. Mas sair para o mundo? Ninguém. Médicos rareiam. Enfermeiros não demonstram afeto. Quem criará vínculo com um condenado? Poucos andam. Eu ainda consigo. Quando chega a noite eu ando. Vou à janela. Nossas janelas dão para o pátio. Algumas árvores. Uma brisa. Mais nada. Passo o dia deitado. Pensando. O que estará pensando cada um? O que eles sentem? Mais um dia de visita. Espero que seja diferente. Alguém para mim. Nunca desejei tanto a presença de alguém como hoje. Um olho para atravessar o meu. Uma palavra. O silêncio me corrói. Berrar. Sair correndo. Pedir um olhar. Os enfermeiros deveriam amar os pacientes. Prostitutas. Sim. Todas as enfermeiras deveriam agir com se fossem uma puta. Carinho. Beijo na boca. Palavras mentirosas. Promessas. Um dia tiro você daqui. Você quer? Tenho dinheiro. Eu posso. Quer ir para uma fazenda? Viver comigo. Só para mim. Só meu. Tudo mentira. Ar frio. Um dia você vai sair daqui. Brincar. Estudar. Namorar. Comer de tudo. Correr livre pelo campo. Nadar. Olhar nos olhos de uma garota. Amar. Um dia você vai respirar outro ar. Tudo mentira. E daí? O que importa? Pelo menos um pouco de ilusão. Mas não. Tudo frio. Frívolo. Eles cansaram. Quantos já iludiram? E por quantos se afeiçoaram? E depois? Se um sair daqui nunca mais vão se encontrar. Um pensamento. Quantas pessoas passam por este hospital! Um queimado. O médico olha. Receita. O enfermeiro trata. Cuida. Alta. Nunca mais saberão dele. Só se retornar. Outro problema. Lembrarão? Somos um monte de números. Sim. Ficha tal. Aquele remédio. Outro atropelado. Tratamento. Gesso. Adeus. Um gripado. Receituário. Lá se foi. Tudo tão rápido. E na família? Igual? Sim. A diferença? A recordação permanecerá. Duas gerações. No máximo. Cento e cinqüenta anos. Os rostos antigos ficam desbotados no cemitério. Tudo é assim. Quantos anos tenho? Como posso saber? Só por que sou uma criança? Nem tanto. Quase nada. Um aniversariante. Lá vem a família. Bolo distribuído em cada leito. Refrigerantes. Só nestes dias. Todos se alegram. Uma tristeza. Um aniversário. Aqui. Os que andam rodeiam a cama do aniversariante. Os familiares. Já se tornaram cúmplices. Vários presentes. Eles se comunicam nas entradas. Corredores. Vivem a mesma dor. Se socializaram. A dor é universal? Até enfermeiros participam. Rumino idéias. Lá vem o parabéns... Parabéns? E viva o fulano! Um viva sem energia. Quanto tempo tenho? Não sei. Ando. Um corredor. Escuro. Escuro. Ando. Quanto tempo tenho? Muitas lembranças. Estou tonto. Remédio. Continuo no corredor. Nem uma luz. Uma mulher sem braços e sem pernas. Uma cama. Um homem com tubos no estômago. Acidentados sangrando. Velhos sendo lavados. Uns berrando. O corredor é grande. Escuro. Escuro. Delírio. É melhor dormir aqui hoje. Uma senhora costurada. Um ataque espumante. Escuro. Escuro.
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Marco Vasques é poeta, contista e crítico de poesia. É autor dos livros Elegias Urbanas (Bem-te-vi, poemas, 2005), Harmonias do Inferno (edição do autor, contos, 2005) entre outros. Tem no prelo o livro de poemas Flauta sem Boca, que será publicado pela editora Letras Contemporânea. Vive em Florianópolis e passou infância em Guaiúba, distrito de Imbituba (SC).