domingo, 3 de janeiro de 2010

Entre Elas: Sérgio Luyz Rocha

REPOUSO

É quando as notas se dispersam em passarinhos e fecho os olhos que de ontem trouxeram tua silhueta morena, que sinto deslizar pelo púbis um desejo que me aflige, apunhala, acaricia e balbucia versos como Coralina. É quando as cores se dissipam em repouso de longínquas imensidões que fecho os olhos de uma dor que parte para trazer-me teu corpo que imagino calorento, feito e desfeito no barro de uma criação descabida pervertida concessão de estacas cravadas na vermelhidão das feridas e na volúpia de teus sussurros insensatos. É quando fecho os olhos e voo de mim ave sem direção contra o vento que açoita e aponta outras direções que fecho os olhos de um caminho escuro e me deito puro para amanhã; é quando recordo trejeitos e línguas, piscadelas e cinemas, calcanhares e ladeiras, chás e sentenças servidas à mesa onde pães e vinhos e tudo pelos ares abrindo picadas para os corpos e mesas transformadas em ambição marinha. É quando fecho os olhos para ver-te inteira que pronuncio teu nome ao ouvido, e esguia te esgueiras por mim amante contorcida tecida nos gestos diários e nas páginas que escrevo enquanto fecho os olhos e recrio mais uma vez o momento.


Sérgio Luyz Rocha é paulistano dos Altos de Santana. Filho de Oxóssi e Iansã, cresceu em meio aos livros do avô e aos discos 78 RPM da avó. Filósofo, faz consultoria educacional para sobreviver. Escreve porque as palavras pedem (mas também pede para escrever). Mora há doze anos sob o céu de Aracaju.

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