sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Liberando Toxinas, por Janaina Lisboa

Mais tarde, irei para academia, sem as minhas roupas de ginástica apropriadas, e sim, com as que eu costumo trabalhar. Depois de passar meu cartão, desejar bom dia e sorrir polidamente para os funcionários e freqüentadores de costume, irei diretamente para esteira, sem alongar, só irei para esteira. Esperarei até que alguma desocupe se for preciso, o que usualmente é.

Subirei na esteira de salto alto, encararei o seu painel e escolherei um programa de corrida . Colocarei os medidores de batimentos cardíacos e começarei caminhando por mais ou menos um minuto. Daí, tirarei meus sapatos e os jogarei contra parede em frente, farei o mesmo com as minhas argolas, enquanto a esteira vai acelerando para uma velocidade decente, como 12 kilometros por hora.

Soltarei os meus cabelos, abrirei os primeiros botões da minha camisa e não correrei como uma atleta, mas sim pela minha vida. Algo como se a culpa e arrependimento se travestissem de alguém enfurecido e armado com um facão de cozinha estivesse me perseguindo.

Começarei a chorar, e, enquanto o rímel escorre e colore as minhas bochechas, olharei para trás e direi “me desculpe, não tive a intenção, não sabia que seria assim!”. Enxugarei as lágrimas e procurarei seguir em frente, sem retornar o olhar, nem virar para os lados, para não ver as oportunidades e as deixarei passar.

Depois de um tempo, esticarei meus braços para frente e praguejarei furiosamente “CADÊ VOCÊ VIDA, QUE NUNCA CHEGA?”. Vou, errôneamente, resolver olhar para trás e verei os as oportunidades, os sonhos partidos. Os problemas e as cobranças estarão correndo ao meu lado. Nesse momento, em que eu corro para fugir de algumas coisas em direção ao horizonte promissor que nunca chega, a minha pele vai estar em quente como fogo, e a coloração das minhas bochechas não vai ser mais preta, mas vermelha. Continuarei correndo, com os braços esticados para frente, gritando “TEM QUE CHEGAR! TEM QUE CHEGAR!”

Nesse momento, os instrutores e as outras pessoas da academia estarão fazendo um círculo em volta de minha esteira, pensando em como fazer para me tirar do meu ritmo frenético e insano sem se machucarem. Voltarei-me para eles e gritarei “VOCÊS ESTÃO MALUCOS? O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO PARADOS? VOCÊS NÃO ENTENDEM NÃO É? SÓ TEMOS ISSO AQUI. ISSO AQUI. E TEMOS QUE CORRER ATRÁS DO QUE QUEREMOS ATÉ ESQUECERMOS E DE REPENTE QUERER ALGO MAIS!”

Quando o relógio da esteira estiver marcando 25 minutos, e meu peito estiver totalmente descompassado, como a bateria de uma banda punk rock de garagem, vou voltar a caminhar e começar a me acalmar. Vou reganhar minha compostura, apesar de estar banhada em suor. Arrumarei os cabelos. Ajeitarei a camisa. Ocasionalmente checarei meus batimentos cardíacos com meus dois dedos nos pulsos opositores.

Quando o relógio da esteira marcar trinta minutos e ela parar, descerei dela calmamente. Neste ponto, terei a atenção da academia inteira. Me sentarei e recuperarei meu fôlego e, finalmente, olharei para pequena multidão que se formou ao meu redor e anunciarei:

“Jamais permitam que eu escolha o programa da vida normal novamente”.

6 comentários:

Mateus Henrique Zanelatti disse...

A vida é assim? Correr sem sair do lugar? Ninguém te pega, você nunca chega?
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Bem original o texto!! ::)
Um dos melhores que eu já lí.

Abração!

ps. Mandei um e-mail para vocês, mas nem me responderam :(

jupyhollanda disse...

PHoda!!!!!!!!

B-Ju

jupyhollanda disse...

Matheus,

Manda de novo. Vai ver NÃO recebemos. Se quiser manda para jupyhollanda@gamil.com que eu repasso para as meninas do grupo.

B-Ju

Marcos Satoru Kawanami disse...

vc gosta de chamar a atenção, como eu.

Cisticerco disse...

Uau...
adorei.
Beijos

Itana disse...

Realmente eu gostei.