sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Resoluções , por Janaina Lisboa

Colar um post-it mental -- em cor neon -- no meu córtex, me advertindo sobre o perigo do assíduo pensamento: “isso é tão magicamente sem-noção que só pode estar muito correto!”, está entre minhas resoluções de ano novo.

O motivo dessa epifania resultada em promessa de ano novo? Uma força ulterior chamada gravidade e as peças que esse ente porra-loucamente diabólico costuma me pregar.

Graças a Deus, eu não estou falando sobre a minha bunda, nem dos meus seios. Eles continuam como crianças travessas com quem você quer brincar, mas, na maior parte do tempo, elas não te convidam para entrar no time e ainda fazem “lero-lero-lero”. O demérito em questão é, ainda bem, nada mais e nada menos que minha semi-nudez involuntária pública.

O problema aqui, Internet, é um pouquinho mais coloridamente embaraçoso do que você pensa. Minhas partes íntimas não sabem parar de querer curtir. Logo, o status de celibata resulta na pulsante energia sexual redirigida à frenética aquisição de lingeries incrivelmente divertidas.

Ok, sejamos sinceras, na verdade, são calcinhas totalmente confortáveis e estúpidas. Pois, se eu me predispuser a vestir uma calcinha torturante, com renda e todo aquele bafafá, ah, é melhor me garantir pela promessa de sua vida que vou lucrar. Ademais, nada compensa melhor a falta de sexo animal e selvagem que a super confortável, amiga e sorridente Arca de Noé – coelho fora – adornado o seu bumbum, não concorda?

Eu, você sabe, concordava. Ênfase no pretérito -va. Porque isso foi antes. Antes do manifesto repetitivo irrefletido e exposicional que aconteceu no ano passado.

A torcida de futebol tricolor do time local nem os oponentes no estádio sabiam (devido a minha bermuda branca) que eu tinha uma calcinha com uma zebra (as cores do bicolor time rival) para agourar a nossa vitória.

De vez em quando eu não tenho a graça e o equilíbrio de uma bailarina, vez por outra, eu sou uma Mulher de Pisa. A minha boite favorita teve uma promoção com a minha bebida favorita (SMIRNOFF ICE PRETA) e fui lá com as minhas pessoas mais queridas. Sentei no topo de uma banqueta no balcão e me senti no topo do mundo, quando um amigo chegou, me abraçou, nos levou ao chão, eu -- de saia, pernas pro ar, longas como um par de Empire States revelando uma coleção de crocodilos de boca aberta no início delas. Puta merda, ainda bem que eu não me recordo. O lance foi tão trevas que ele foi pra casa de táxi e só ligou para se despedir quando chegou na segurança do lar.

Talvez eu precise de três a quatro experiências para repudiar algo totalmente da minha vida. O ponto final foi quando saí com a minha mãe para as compras de natal, deixei o carro no lava-jato do shopping, na volta, tropecei em algo invisível ao olho nu, caí na frente de todos os trabalhadores e a ponta da parte de trás do meu vestido cobriu a minha testa (?!?!?!).

A queda foi feia. Mesmo em comparação com proporções bíblicas, mitológicas e históricas. Estou falando em Adão e Eva Queda do Paraíso, Prometeus Queda do Olimpo e Aldoph Hitler Queda do Poder. Tão ridícula que as pessoas se recusaram a rir. Tão feia que quando a minha mãe me ouviu gritando “CARALHO!” e caindo, negou o incondicional amor materno, não voltou pra me ajudar, mas, seguiu caminhado como sequer me conhecesse. O guarda que estava do meu lado não sabia se me ajudaria mais me levantando ou fingindo que não viu nada.

Eu estava usando uma calcinha laranja de bolinhas brancas, a mesma que estou usando – pela última vez – enquanto escrevo esse post. Veja bem, se você, Internet, não estiver abrangendo a amplitude dos fatos. Sou uma pessoa pálida. Adoro cores cítricas. Apesar de ficar tétrica nelas. Por isso as resguardo para peças íntimas - quando tenho a intenção que não sejam vistas por par de olhos algum que não sejam os meus – e acessórios. Meu bumbum é grande e branco, nunca estaria de comum acordo com a minha razão mostrar isso em público, DE LARANJA. É um crime hediondo com direito a expulsão do céu estético.

Para reforçar a desnecissadade completa do tombo, não me machuquei. Em tempo record, levantei, ajeitei meu vestido, coloquei meus óculos escuros gigantes, continuei andando como se estivesse concorrendo ao America’s Next Top Model. E se alguém viesse me perguntar “você está bem?”, responderia: “Quê? Não entendo nada. Mas, estou ótima. E você?” Agindo como se o evento jamais tivesse ocorrido.

É claro que enquanto eu caminhava ao carro, cheia de graça , classe e elegância, praguejava contra os céus numa linguagem de malandro em programa policial, para que eles me dessem algum fundamento, alguma explicação social boa de eu ter caído no lava jato do shopping lotado, na véspera de natal, ponta-da-parte-de-trás-do-vestido-diretamente-para-o-meio-da-testa, além da, quem sabe, as pessoas comentarem com a boca cheia de peru e farofa sobre o evento.

Não me interessa mais. Nada disso. A inquisição contra as lingeries ridículas começa hoje. Está aberta a temporada de extinção de animais na minha gaveta. Arca de Noé no meu bumbum, quem viver nunca mais verá.

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