sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Coração de Carnaval, por Janaina Lisboa

Chamava-a de Tereza, quando o nome dela era Janaína. Ele tinha dentre várias convicções, a de atormentá-la com clichês. Outra era o amor pelo futebol. Pelo Flamengo pra ser mais específica.

A estória do apelido, ah, vou lhes contar! Estamos agora, meus amigos, em 2004: ele tem um fusca e um violão, e Tereza, que ainda era Janaína, um terrível tédio.

Jana, para os íntimos que não a conheciam, estava, em sua maior parte, viva apenas subcultanêamente. Suas explosões de bestialidade e beleza eram internas e inaudíveis aos ouvidos normais, aqueles que só ouviam o que queriam. O que restava de sua vivacidade exterior, ironicamente, se manifestava por meio de suas células mortas. Os cabelos e as unhas eram sempre pintados de cores violentas: negro luto e vermelho sangue, em glória, honra e memória de seu falecido deslumbramento e de seu êxtase hemorrágico.

Estava na casa de uns amigos, durante uma confraternização Natalina, enquanto eles debatiam os nefandos Giddens, Bourdieu, Baudrillard... Bebia seu vinho tinto seco como se fosse uma dose de paciência. Sentada na pontinha do sofá, tirando silenciosamente o enchimento da almofada através de um buraquinho que havia encontrado, esperando uma oportunidade de levantar.

“Depois do amigo secreto não passa!”, ela pensou esfregando as têmporas. Esperava, que como Atenas, de sua dor de cabeça brotasse a mínima vontade de estar ali.

Não gostava do assunto apesar de entendê-lo, sabia até exatamente onde iria terminar: vozes alteradas, pulso levantados, goles de uísque, baforadas de cigarro, brigas pela posse da razão, campeonatos de citação de defuntos famosos, e última parada: lugar nenhum.

Esfarelava o enchimento da almofada como se passasse contas de um Rosário, fazendo um apelo sagrado para que algo mudasse aquela noite, aquela vida.

Foi aí, senhoras e senhores, depois do barulho do fusca, junto com o cheiro de torresmo e cerveja, vestido na camisa dez do flamengo, trazendo a maconha, que ele chegou. Vejam só o grau de impureza do malandro. Nada mais escroto. Nada mais truculento. Nada mais malsoante. Nada mais interessante.

Ela teve um espasmo nos lábios calados. Sorriu um daqueles risos fujões que aparecem quando não se sabe o que fazer. Um sorriso de “puta-que-pariu!”. E ele pensou que fosse sinal de simpatia, sentou-se perto dela, tirou a almofada de suas mãos e passou a perturbá-la. Mas, ela repetiu o sorriso depois que recebeu um Panetone, o hediondo presente, e, dessa vez, ele fez a correta interpretação.

A convidou para sair e ir lá pra onde não sabiam cantar Jingle Bell, conhecer gente viva de palavras próprias que realmente sabia das coisas -- capoeiristas, trapaceiros, sambistas, macumbeiros, baianas, floristas, carroceiros, motoristas de táxi, putas, jogadores, brancos, negros , mulatos.

A despeito da imbecilidade vital que sentia perto daquele povo, adorou estar ali. E Tereza, ainda Janaína, resolveu, depois de breve consulta aos seus escrúpulos, rebaixá-lo da patente de Estranho Azucrinante – nos olhos dela – para Namorado Grotesco – nos olhos alheios.

“O que ela faz com ele?”, era a fulminante interrogatória generalizada. “Não vai durar!” era a previsão mais certa. Mas, contrariando as expectativas, passaram o réveillon juntos. E no carnaval, houve a primeira briga. Tereza, agora sim, Tereza, ia desfilar no carnaval com uma fantasia quase invisível e totalmente pornográfica.

Agora, minha gente, se Janaína enfadada era triste, Tereza emputecida apavorava. Ele enciumado disse que não, e ela, pungente, dramática e portadora de um vocabulário recém-aprendido de samba-enredo, mandou que ele largasse o jeito de valente-pra-suas-nêgas e deixasse ela ir. Ele com sua masculinadade abalada disse que se Janaína fosse, nunca mais voltava.

“Terezinha, não vá pra Sapucaí. Terezinha, cubra os seus peitinhos”. Sem olhar para trás ou refletir, ela saiu pela porta, no seu caminhar de passista, orgulho de porta-bandeira. E o povo da roda de samba viu o que há de mais triste de se ver: um malandro carioca chorando pelo amor de uma dondoca. Na sarjeta, ele ficou se lamentando, desejando ter-lhe apelidado de Amélia.

Na quarta-feira de cinzas, fedendo a torresmo e cerveja, vestindo a camisa do rubro-e-negro que ele tinha dado, ela bateu na janela. Nada mais clichê. Nada mais sem classe. Nada mais desentoado. Nada mais amado.

Ela trazia na boca, ao invés de citações, beijos e palavrões . "Amélia mulher de verdade, o caralho!". As unhas encarnadas escarnadas nas costas dele, ela cravou . Suas explosões de bestialidade e beleza eram ouvidas por toda vizinhança. Reclamar ele não ousou.

Janaína, que jamais esteve aqui, não mais voltou, mas Tereza ganhou destaque, alegoria e continua a desfilar.

4 comentários:

a clara menina Clara disse...

Fantástico, Sun!

Marcos Satoru Kawanami disse...

Li até o fim, apesar de ser reprise; porque é do nível de um Mário Lago.

"E o povo da roda de samba viu o que há de mais triste de se ver: um malandro carioca chorando pelo amor de uma dondoca. Na sarjeta, ele ficou se lamentando, desejando ter-lhe apelidado de Amélia."
[ puta-que-la-merda, concordo ]

Miss Girassol, sabe que lembrei?, isto:

"Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela, oi, a Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa
Em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
Desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade
Estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão
Mais tarde o encontrei
Num café zurrapa
Do Largo da Lapa
Folião de raça
Tomando o quarto copo de cachaça
Isto não é chalaça

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta feira
Cantando A Jardineira, oi, A Jardineira
Me pediu ainda zonzo
Um copo d'água com bicarbonato

O meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama
E não tirou nem o sapato

E roncou uma semana
Despertou mal humorado
Quis brigar comigo
Que perigo, mas não ligo!
O meu pedaço me domina
Me fascina, ele é o tal

Por isso não levo a mal
Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela
Gosto dele assim
Passada a brincadeira
E ele é pra mim
Meu Sinhô do Bonfim"

(CAMISA AMARELA - Ary Barroso)

tenho a primeira gravação, na voz da Aracy de Almeida, a voz e amizade preferida de Noel Rosa.

;***
Marcos




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Fábio disse...

"Os cabelos e as unhas eram sempre pintados de cores violentas: negro luto e vermelho sangue".

Rubro Negro, Deve ter sido exatamente isso.

Beijos.

Blogger disse...

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