domingo, 21 de fevereiro de 2010

Entre Elas: Fernando José Karl

foto de edward weston
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UM FERVOR DE AGÁRICOS

Ao amanhecer está Lucana adormecida na cama larga, entre copos de bebida emborcados, cesto de frutas – kiwi, mamão – e restos de sonhos, enquanto o Cristalino, frente à janela escancarada, fuma erva-cidreira e escuta no gramofone a voz de Caruso. A árvore fora de mim: é por ela que subo até às vidraças azuladas da Casa de Água, onde o vento acorda de cabeça para baixo: soprar o vento para as bananeiras e para as constelações. Aqui na varanda espio o Cristalino fumando e um fervor de agáricos nos troncos da amarga oliveira. Observo as finas cordas da chuva que serenam d’água os telhados de Villa da Concha. Calmo, podia inventar o paraíso, silêncio a silêncio, sombra por sombra. Seria um silêncio criador – fonte aberta ao acaso – busca incessante do gume ileso do vocábulo: silvo de fogo na geleira e nunca a lentidão líqüida de algas apodrecidas.

Ela, Lucana, a protetora da palavra de Oxum, súbito adivinha que a frase-brisa virá: sete ervas, sete águas. Ora o conjuro do templo de pedra pura, molha na retina a imagem inconclusa de um cacto sem saída, mas aguado na retina. Angorá a envolve: imagem-angorá traduzida para objeto. Nos olhos do angorá a luz vazando para o íntimo silêncio.

O paraíso é uma gravura chinesa cercada de peixes miúdos, transparentes. Contra as nuvens oníricas, imortais eruditos do folclore chinês dão as boas-vindas a um recém-chegado ao domínio celeste: este solo de oboé do século II.

O silêncio nunca dorme.

Sôin, à sombra do Monte Yoshino, observa e ah! o gafanhoto pula – aroma fosforescente cintila um instante. Tão compenetrado Sôin, não faz outra coisa durante o dia.

Neve em Kyoto: o pinheiro vergado de nuvens. O grou, em seu galho, avista o ombro de Bashô. Ombro vira galho. Neva na neve: Bashô vergado de neve. A neve, sua brancura, cai no grou e no ombro de Bashô.

No quintal de uma casa japonesa, Onitsura se esforça para encontrar a verdade. Dez anos procurou as nuvens que se molham no fundo do rio, antes que as trutas saltem. Quando desistiu, Onitsura foi ao horto e ali se iluminou ao ver as folhas de bambu: peso do sol as inclinava às águas do chão. Noturno para a quietude do pássaro pisando lago seco próximo de folhas. Noite: cabelos molham a luz suspensa no lago.

Buson escutou na Casa de Chá do Luar de Agosto, que somente as obras sopradas pelo espírito são boas. Com shi-i (visão própria), Buson aprendeu que na maré vazante águas flutuam conchas sem medo.

Com o leque branco, Hokushi abana carpas no lago abafado. Alma de Hokushi: o leque branco.

E se houver jardim de sopros no oco da estrela alfa de touro? Se pequeno mosteiro com pomar houver na constelação boreal de Cassiopéia? E se nada disso houver, que Houyhnhnms saiba imaginá-los.

A imagem é a respiração daquele que é o Estranhíssimo.

A jarra de Heidegger vista da barca Nautikkon: obra clara psicografada pelo que na água tem sede. A jarra dormindo, raro espécime, no teu pulmão. Porém tão de longe vinha a luz pelos varais, que eu só podia segredar: o oco da jarra não se faz, o oco da jarra acontece.

Oco da jarra: a existência do Vazio no centro do real.



Fernando José Karl, 48 anos, é natural de Joinville/SC. Jornalista. Foi editor-assistente do jornal cultural paranaense Nicolau. Foi o criador, ao lado de Joel Gehlen, do suplemento cultural Anexo, do jornal A Notícia. Autor, entre outros, dos livros “Diário Estrangeiro” (Prêmio Cruz e Sousa/1996/Editora da UFSC); “Travesseiro de Pedra” (Prêmio Cruz e Sousa 1997/Categoria Poesia/Editora da UFSC); “Brisa em Bizâncio” (Travessa dos Editores); “Casa de água” (Antologia em comemoração aos 25 anos de poesia/Editora Letra D’água) e “O livro perdido de Baroque Marina” (Prêmio Cruz e Sousa 2009/Categoria Romance/Editora da UFSC). Tem duas obras-em-progresso: “O Cacto” (Contos) e “O livro de cabeceira de Hitler” (Romance).
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Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

pô, só eu comento aqui?

alguém me ajuda. aceito uma mãozinha... um empurrãozinho por trás...


=D
marcos