domingo, 14 de fevereiro de 2010

Entre Elas: Raphael Pousa dos Santos

AOS DOMINGOS ENCONTRO FALTA DE AR
.
Aos domingos encontro falta de ar. De calor, de estado puro, da vegetação que construo dentro do meu quarto. Aos domingos encontro, ou sinto a falta, da mão, passando por cima do meu rosto, pelos meus cabelos. Aos domingos encontro a solidão aparente, parente do temperamento festivo do sábado, não todos. Aos domingos sinto o gosto de cerveja passada pela minha boca, pelos meus lábios, sinto a falta dos lábios dela. Deus distancie-me dos domingos: aflitivos, olfativos, velhos. Aos domingos sinto a morfina para uma dor que não vem. Aos domingos sinto a perda do tempo pelo tempo. Rajada dos verbos e versos que saem da minha palavra. Aos domingos sento para descansar. Para cuidar do ser imposto do meu ser. Pago pelo imposto. Flatulo pensamentos, perverto-os. Aos domingos vejo sóis parados a sós no céu. Aos domingos não vejo o dia triste, vejo-o alegre, porém inadequado à estabilidade do próprio dia. Seria domingo o lado negro de sábado? Ou seria domingo o tédio travestido de dia. É de domingo também a incumbência de lembrar de lábios, fumaça, palavras ao pé do ouvido. É de domingo a cor da ressaca do sábado. Da relutância em, às vezes, deixar perder este angustioso tédio diurno para nas noites ter a saudade do coração perdido no dia anterior. Aos domingos penso, penso e paro de pensar. Isso já é atividade da segunda.
.
.
Raphael Pousa dos Santos é de Cachoeira Paulista, analista de sistemas e um apaixonado pela literatura e pelas palavras.
.

Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

domingo é véspera de batente. há que se dormir cedo, e com a ansiedade de acordar cedo, para a rotina, e a rotina é estar morto em vida pra outro ganhar dinheiro à tua custa.

eis a merda de domingo, e tu sabe isso, o que exponencializa a porra da merda.