quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mais uma noite, por Clara Arôxa

Desço do carro, na rua nunca ida, e observo o caos da cidade.Em frente ao teatro, uma fila imensa na espera da abertura dos portões. Entro na fila, me junto àquelas pessoas que querem reviver qualquer segundo cuja trilha musical havia sido o tal do Chico César, espero do mesmo jeito que a vendedora espera que eu entre na loja de roupas indianas falsificadas. Agoniado com a minha expectativa, depois de tê-lo inundado de perguntas das quais, com certeza, ele não saberia responder, o professor atrás de mim, com delicadeza, se oferece para guardar o meu lugar na fila. Com licença pra lá desculpa pra cá, descubro que os segundos deixados naquela calçada foram em vão, os ingressos haviam esgotado há dois dias, só restavam para professores e quem se submeteria ao preço superfaturado dos cambistas de plantão. Volto à estaca zero. Até lembro-me do professor e de sua boa vontade, mas decido não voltar, a quantidade de gente me angustiava e a solidão piorava o quadro. No meio daquele caos de filas, ambulantes, bares e frustrações aguardo um milagre, um helicóptero imaginário que pouse, ali no meio, e me tire do barulho da cidade.

A Conde da Boa Vista é longa e possui um corredor de paradas de ônibus extenso, é preciso esperar que o ônibus passe por cada uma, entre um semáforo e outro, entre vendedores, aos berros, anunciando as promoções das lojas, ambulantes de pipoca que quase jogam o saquinho em seu colo, água mineral e fazer malabarismos ao andar na calçada para desviar das barraquinhas vende-de-tudo implantadas no meio do caminho.

Volto à avenida principal, o centro da cidade assusta, as pessoas passam apressadas, cansadas, imersas em si e sempre estão à espera de algo. Eu me encaixava naquele conglomerado heterogêneo, esperava o sinal fechar, encontrar a direção certa, o ônibus que nunca chega, as pessoas que vão e você fica. Na verdade, rumo eu não tinha. Às seis da tarde, a urbe se transforma e obriga as pessoas a acompanharem seu ritmo, andar rápido porque a fila para entrar no ônibus aumenta, os horários chocam-se, os trombadinhas atacam, os motoristas não respeitam a parada correta. Correm todos, impacientes, esmagam-se para conseguir um lugar no coletivo, de preferência, nas cadeiras, enquanto o mundo continua no degrau debaixo. Aí vem a espera do troco, do bilhete eletrônico, dos segundos para a catraca destravar e encarar o conglomerado de pessoas impacientes com o trânsito da cidade.

A menina sentada no banco da frente lia, com bastante atenção, dicas para o primeiro beijo “evite chupões, eles deixam marcas”, informava o manual, enquanto, nos ouvidos, qualquer balada da moda soava de um jeito capaz de remexer seu corpo, timidamente. Aos poucos, foi escondendo o manual por que um senhor de meia-idade sentou ao seu lado e, instintivamente, focou o olhar em um ponto vago, mas que atingia sua literatura juvenil. As descobertas teriam que esperar por mais algumas horas.

À medida que as pessoas iam subindo, as letras iam se formando em minha cabeça, completamente imersa no texto, na tentativa de desvendar todos aqueles desconhecidos, fui surpreendida por uma mulher: “Moça, posso colocar o pacote aqui? Tou com medo que quebre”. Naquele momento, além de um texto fervilhando, precisava de concentração muscular para evitar acidentes, olhei para ela e percebi seu cansaço, pensei em ceder o lugar, mas fiquei na espera por coragem, não veio. Homens e mulheres subiam repletos de sacolas nas mãos, me lembrei que o dia das crianças se aproxima, essa coisa mercadológica ainda tem força e faz as pessoas esperarem o dia “certo” para dar presentes. No rádio, uma linguagem fática para vender o show da dupla sertaneja de sucesso, tudo para e pela massa e “ não saia daí, daqui a pouco, calcinha preta e sua nova música”. Ninguém parecia ouvir.Todos estavam imersos nos seus problemas, seguravam firme e nem percebiam que, lá fora, o sol ia perdendo a cor. Esperavam soluções.

Uma mulher com seus 40 e poucos anos, estava em pé, na minha frente e franzia a testa de um modo curioso, intercalando com algumas tentativas de decorar a música da banda. Dentro da cabeça dela, diálogos intermináveis pareciam chocar-se - aquele era o segundo que, em meio a desconhecidos, ela podia ouvir os gritos internos, sem medo que alguém reconhecesse sua voz, até chegar a vez de descer.

Trânsito, a cidade não comporta o avanço do capitalismo, não suporta as buzinas estridentes de cidadãos irritados com a espera. Dentro do ônibus, é possível observar que tudo, absolutamente tudo, gira em torno do segundo que se aproxima, difícil é conter a ansiedade e expectativa. Cada parada é uma vida que começa a se desenrolar novamente, cada descida é uma nova história, num novo passo.

Minha cabeça começa a dificultar as conexões e se perde em lembranças: passo pela escola de frevo e, de longe, vejo as coreografias que saem daqueles meninos, imagino minha volta à dança, sorrio, no próximo semestre, quem sabe.

O caminho até minha casa vai encurtando, as pessoas vão descendo sem se despedir, submersas em seus cotidianos, silenciosas demais. A senhora toda vestida de roxo cintilante espera que algum cavalheiro ceda o assento, em vão. Espero reconhecer a placa da padaria, é na próxima. Algumas pessoas imprensam-se na porta traseira, na ânsia de descer primeiro, tento me equilibrar no pouco espaço que me resta, na espera do freio brusco dado pelo motorista, desconexa ao todo, assim como esse texto, espero.

Desço do ônibus, com todas as esperas que ainda irão percorrer mais tantas esperas de tantas pessoas que esperam uma espera qualquer.

Você, quando chega?

2 comentários:

Fábio disse...

Muito bom.

Marcos Satoru Kawanami disse...

bom exercício de sintaxe e ortografia. parabéns, persevera.