sexta-feira, 26 de março de 2010

Cobiça, por Janaina Lisboa

Filmes, música, livros, a pulseira que minha mãe me deu. Tenho laços fortes de afeição com objetos inanimados. Ouso até dizer que alguns deles definem a minha personalidade. Sentimento oco, infértil. Eles nem se importam, nem me amam de volta, alguns estavam ali antes de eu nascer, e o pior, eles vão viver além de mim. E, alguns dias, tento ignorá-los para eles saberem como é a recíproca, ou tento abusar de cada objeto de minha afeição, fazendo-os reféns das minhas idéias, invento desculpas e justificativas para que a preexistência deles só tenha sentido depois da minha. E quando eles ousam desafiar a minha essência... Isso não é justo. Os perco subpropositalmente pois, nos meus pensamentos mais profundos, um desejo disfarçado de fluidos do córtex revela uma urgência de me livrar deles porque eles vivem e eu morro. Sinto inveja.

Ao contrário para a crença comum, não é uma obsessão fervente pessimista, é exatamente o oposto. A vida me maravilha, eu admiro a vida, eu cobiço a vida, e por isso tenho pontadas súbitas de inveja de qualquer forma inanimada que ouse existir mais que eu.

Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

tá parecendo meu pai.

vc é veado?