domingo, 14 de março de 2010

Entre Elas: Alex Guterres

CALOR E FOME
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Ela passava os dedos de leve por entre os livros de física quântica, enquanto pensava se um dia o relógio marcaria meio-dia. Ela contava quantos clientes foliavam o mesmo livro do Gabriel Garcia Marques sem comprar, enquanto pensava se um dia se um dia o relógio marcaria meio-dia.
Meio-dia. Alice saiu da livraria pisando nos quadrados de cor vermelho claro no carpete. Lá fora mal sentiu o calor que soprava do rio, também não retribuiu com aquele sorrisinho de sempre a cantada manjada do taxista de plantão. Não era fome de compras, nem fome de escada rolante, nem fome de fast food...
... Alice foi a um restaurante no Shopping Center. Sentou-se sem pedir nada...
Ela abriu o freezer, passou o dedo na fina camada de gelo sobre a cerveja gelada, enquanto pensava se um dia aquele calor iria passar. Ela abria e fechava a caixa registradora, enquanto pensava se um dia aquele calor infernal iria passar. Julia caminhou sem olhar para o chão, em direção a única mesa ocupada.
Alice não queria amor nem livros. Pra que meio - dia se essa fome não passa? Alice tava doida pra dar e queria algo que não se comesse só com a boca. Alice não tinha poema na ponta da língua. Alice tinha brasa de inflamar calor. O corpo era pequeno e pálido, daqueles de se quebrar ao meio.
Meio-dia e vinte e dois. Julia não via à hora de servir. Servir pra algo que ela não sabia bem o que. Julia só sentia calor, com os dedos ainda dormentes do gelo da cerveja. Smoke on the water, tsssss... O toque dos dedos pardos, pintados de esmalte vermelho, na pele branca. Já pediu? Não, o que você tem pra mim?
Alice de olhos verdes, cheios de malícia. Julia de olhos negros, cheios de presteza... Havia um som ambiente qualquer, mas referência sonora não é importante agora... Alice. Eu preciso de algo que não se coma só com a boca, vocês servem? Julia. Temos lagostas belíssimas, que muitos só comem com os olhos. E o riso ficou preso na garganta das duas. Alice. Se paga pelo guardanapo aqui? Julia. Não, mas pelo toalete sim, se é isso que você quer saber. Não foi possível calar os risos distintos: a breve gargalhada de Alice e o riso fresco, porém contido de Julia. Alice. Pois então me veja um guardanapo bem limpo e uma senha para o banheiro masculino.

Um sorriso de dentes que não eram totalmente brancos fugiu da boca pequena de Alicinha. Julia retribuiu, conduzindo sua pequena por entre as mesas vazias, ou quase vazias no salão, sem senha nem papel em branco.
Brancos eram os azulejos que cheiravam amarelo, cor de pinho e naftalina ou limão... Voltando a referência sonora, no salão tocava alguma coisa do Bill Evans Trio... Julia era robusta e gentil quando tocou com a ponta da língua semi-roxa, de frio ou calor ou de cor, a nuca branca. A Branca de pinho, de limão, ou de cor de azulejo, recebeu o toque úmido de olhos semicerrados, enquanto suas mãos sem esmalte vermelho caminhavam livres pelo papel marrom entre aquelas coxas. Para cima. Mais para cima. Para dentro. Mais para dentro...
Os espelhos foram testemunhas semi-oculares do orgasmo de Alice. Do orgasmo de Julia. O que Julia fez Alice não esquece. O que Alice fez Julia não pode contar. Ninguém viu, Julia sussurrou. Alice com as pernas mais ágeis refez-se e conduziu sua criada trêmula de volta a mesa vaga. Sentaram-se as duas e por um breve momento nada aconteceu. Julia não teve cara para cobrar a senha do banheiro masculino e Alice, por conta, rabiscou num papel em branco:
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Metade do que eu digo é sem sentido,
Mas eu digo só pra tocar você, Julia.
De Alice.
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Alex Guterres é de Recife, apaixonado pelo fedor dos becos da minha cidade, vê as verdadeiras histórias na trivialidade das pessoas comuns, nos atos do cotidiano e na suposta ignorância da maioria.O Recife lhe sussurra os textos e ele simplesmente tento passá-los para o papel. Tem uma queda pela boemia, pela madrugada como fonte de luz e por mulheres que não deixam tudo exatamente às claras. É facilmente seduzido pelas imagens escondidas em sua cabeça.

2 comentários:

alex disse...

erros de concordâncicia na mini bio... bebado...

a clara menina Clara disse...

Dá um orgulho danado desse texto ;)