domingo, 7 de março de 2010

Entre Elas: Rafael Avansini

Travestindo-se...

Ela queimou o “soutien”. Jogou fora o avental ganho no dia das mães e deu um basta nas disputas conjugais. Empurrou-o de lado, gritou-lhe um palavrão na cara, foi até o canto da sala e mijou em sinal de posse. De pé, sem estar vulnerável ou atraente, sem cabelos esvoaçantes ou maquiagem pesada, ela declarou sua conquista territorial em termos de posses declaradas e violentos tapas.
As unhas compridas, vermelhas, tão “delicadas”, arranharam dissimuladamente as paredes. E os dentes muito brancos, emoldurados por um batom vermelho-berrante, espécie de mínima “pintura de guerra”, desafio visual, disposição à luta; mostravam-se ameaçadores, carnívoros, antropofágicos, naturais.
Amarrou-lhe as pernas e os braços, persuadindo-o. Deu safanões, gritou-lhe aos ouvidos blasfêmias e impropérios na forma de um canto bélico vitorioso. Dominou-lhe a dominação em termos de mãos espalmadas em pele virgem, arranhada por garras vermelhas de sangue e esmalte.
Tomada de profundo senso primitivo, travestiu-se em animalesca aparição aterradora. Atacou vorazmente, sem piedades humanas ou sentimentalismos sociais. Predominou, subjugante, com olhos brilhantes de ódio incontido e demonstrações de poder. Possuiu-lhe a carne com a força de longos dedos e cutículas bem cuidadas.
- Submissa é a puta que te pariu!


Rafael Avansini é ator amador, estuda teoria literária com ênfase em literatura dramática. Publicou quatro contos em duas edições do Dedic Escreve, concurso literário da Dedic Mobitel. Tolo, bêbado e amante de manifestações artísticas de toda espécie. É um perdido.

2 comentários:

Raquel disse...

muito bom! todas a mulheres tem o direito de dar o seu grito de independencia um dia...não estamos mais na era das Amélias.

a clara menina Clara disse...

Fantástico!