quarta-feira, 10 de março de 2010

por Clara Arôxa

Eu tenho me lembrado muito de você. Principalmente quando os textos se formam na minha cabeça, mas não chegam ao papel. Tem acontecido com certa frequência, sabe? Ando um pouco distraída com as letras, vezenquando me vejo formando sílabas no ônibus, na aula, na espera e nem se quer junto-as para te mostrar. Passa, sempre passa. Me lembro de ter bolado um texto sobre aquilo de certas pessoas serem um sonho, cheguei a conclusão que também vivi, há pouco, um sonho humano, cheio de carnes, ideias e expectativas. E assim como sonho, o texto continuou no imaginário, até sei umas frases decoradas coisa e tal, nada que precise explodir tão rápido.

Mas me fala de você e do seu novo sumiço. É assim, quase todas as vezes, né? Você some, eu sumo e, ao mesmo tempo, nos encontramos presentes um no outro. Ligados, às 4 da manhã, pela insônia e pela vontade de dizer qualquer coisa, com ou sem sentido, ao outro. Às 4 da manhã. Porque é assim que a gente se entende, madrugada a fora, coração palpitando a duas mil por hora. E tudo vira silêncio. Um silêncio telepático, acolhedor. Sorriso.

Estou com saudades das tuas loucuras, das nossas sandices compartilhadas. Estou com saudade do meu cúmplice de amores inventados. Outro dia, sentei e acendi um cigarro. Tentei enxergar, pelo lado de fora, a loucura cotidiana desse negócio de gostar de alguém, e quase piro. Tô pirando, neguinho. Achando tudo muito divino e maravilhoso. Não é uma questão de opostos, os únicos pontos em comum existentes são a vontade e a saudade, coisa louca. E parece tudo se encaixar, se restringir àquele segundo. Tô naquela de não precisar bancar a intelectual, falar coisas bonitas e recitar Sartre, meio perdida ainda, mas feliz. Lúcida.

Recebeu a carta que eu te mandei? Naquela virada de dia, havia fumado muito, estava embriagada de sentir e fui te escrever. As duas linhas que consegui reproduzir carregam um mundo de informações confidenciais, conseguiu ver? Te falo da Lua, do frio, do dia, de todas as noites, das expectativas que estavam se cumprindo, das ilusões da semana passada. Duas linhas azuis e um voe bem no final para garantir a tua volta para casa. Se ainda não recebesses, perdão. Quase não me contenho quando preciso falar de você, quando me vejo cutucando as memórias que fazem parte da nossa história, é coisa de amor, sabe? Claro, você sabe.

Vou ficar por aqui. Não ando dormindo bem, vou ver se descanso um pouco. Minha cabeça tá completamente voltada pra vida, imersa nisso de sentir e sentir e sentir. Olha, apareço sim. Não esqueci do teu incenso, ainda não tive tempo de comprar, os meus também acabaram e sinto uma falta danada daquele cheiro que me lembra você. Me manda notícias e aquele texto sobre a dor no lado esquerdo do peito, preciso me manter inteira e ele faz parte desse pedaço.

Faz tudo, só não me mata de saudades.

Por um acaso, eu te amo.

C.

2 comentários:

André Luiz disse...

Soa loucura. só a loucura. Quem mais entenderia isso?
Não tem mistério. é simples: a gente é leve. mal bate o vento, já voei. você também, leve leve.

Preciso te dizer que descobri que ainda há tanta poesia, tanta palavra, tanta música, tanta arte, e a gente fica numa urgência de achar que a última gota da poesia se esgotou. mas olha: as coisas andaram explodindo por aqui. as coisas precisam precisam explodir, lembra? eu voei, ando distante e me sinto mais vivo, mais andré. não tenho mais paciência de recitar caio, sartre ou o diabo que for, guardo eles tão no fundo, tão comigo, você entende né, sei que entende, as vezes cito de cabeça como se fosse eu, tão claro.

Olha: vai guardando cada sílaba. um dia a gente joga todas pro ar e sai voando e vivendo tudo, vai ser lindo.

Ah! me desculpe as poucas palavras e meio bobinhas, é o porre da madrugada de ontem, de mal gosto por sinal..vodka com groselha. mal abri o olho e dei de cara com teu email. a gente se fala, jasmim.

um beijo dos azuizinhos, eu amo você.

Lívia Mendes disse...

É, esses acasos!!!