sexta-feira, 12 de março de 2010

Periódico, por Janaina Lisboa

Ele lhe sorria sentado à mesa entre goladas de café e paginadas no jornal. Ela esperava que ele acabasse para que pudesse prosseguir com o seu hobby de recortar e colecionar notícias profanas.

No aguardo, praticava seu outro passatempo, o de desenhar grandes mosaicos prosaicos mentais.

Montava o sujeito em colagens: quarentão, destruído, sem graça. Não era brocha, nem o mais viril dos homens. A foda era meia-boca -- como sua vida toda havia sido. De certa forma, tudo isso a fazia lembrar de seu pai e daquela Páscoa há não sei quantos anos atrás, quando jurara nunca mais perdoá-lo. Ou seria Natal? Já não sabia mais distinguir se o colorido dos papéis eram dos presentes ou dos ovos de Páscoa. Perdera-se nas variadas cores das memórias tristes enquanto ele murmurava algo sobre as notícias.

Enfim, ele indignado com a sua ausência indaga:

- Quem precisa de mulher quando se tem cafeína?

Também mentalmente, ela colou a letra "T" entre o "E" e o "I" de cafeína. Era isso que ele pensara dela, ela o lia pela maneira de olhar.

Em seguida, lembrou do diálogo que teve com várias amigas. Todas muito recatadas. Tinha Fernanda que não conseguia gozar se não estivesse transando num local público que tinha nojo de Alice que só antigia ao clímax se fizesse meia hora de sexo anal e que, por sua vez, reprovava Diana quem não alcançava ao orgasmo se uma amiga sua não estivesse transando junto que sentia pena de Juliana que só conseguia gozar depois que fosse espancada, chamada de filhinha e começasse a chorar que se horrorizava com todas as outras. Cada uma delas haviam a chamado de louca varrida quando discorreu sobre a verticalização do mundo.

Veja bem – explicava ela para as amigas – qualquer um que já tenha tentado transar de pé, sabe da importância das camas. Senão delas, daquele colchãozinho furreca jogado no chão frio, ou pelo menos a coberta grossa e suja que pode ser estendida em qualquer lugar. O importante mesmo é a manutenção do princípio da horizontalidade.

Pausa mórbida de todas as amigas.

Outra coisa que todos sabem – continuava ela – é que a horizontalidade remete ao sinal de menos, ou seja, é a negação de algo, enquanto a verticalidade é o positivo, a afirmação. O que me traz à ponderação: o que negamos quando transamos?

Em consenso, Alice, Fernanda, Diana e Juliana, acreditavam que ela era louca. Uma depravada.

Pensou em abrir essa discussão com ele, mas então o fitou novamente. Uma nova colagem: intrigante, perdido, idealista, estúpido. Lembrou do namorado da adolescência. Ele tinha dezoito e ela catorze naquela época, fato que não impedia que ele lhe metesse a vara, sem que o seu pai soubesse, é claro. Mas, os flagrou num dia de Natal. Ou seria de Páscoa? Não se lembrava mais de que eram aqueles papéis coloridos nos quais haviam se deitado quando procuravam se esconder. Ela brigou com o pai e fugiu com o namorado. Realmente acreditava que aquilo daria certo, que ele era o homem de sua vida, o que ficaria com ela até o fim, ou pelo menos o que ela degolaria enquanto ele dormia. Ah, o homem da sua vida, aquele para quem ela se entregaria por completo e que a humilharia mortalmente depois. Mas, nem um nem outro aconteceu. A simples e natural antipatia juvenil se encarregou por terminar as coisas. O que negamos quando transamos? Quem precisa de mulher quando se tem cafeína? Quanto tempo se passou desde que ele a perguntara?

- Quem não sabe fazer café, obviamente, pois aí o panaca precisa de uma que saiba fazer um café quentinho de cafeteira pra ele. Acabou de ler o jornal?

Ele lhe sorria feliz entre goladas de café por saber que ela estava ali. Ela com a tesoura na mão, não o degolaria na segurança de saber que ele não era o seu pai, nem a paixão explosiva juvenil, tampouco, o amor de sua vida. Essa cena se repetia no mosaico prosaico de seus dias horientalizados pelo cotidiano sem fim.

2 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

a minha primeira relação sexual foi em pé.

realmente, tem mulher que, se fosse homem, seria baitola.

um colega meu teve de dar tapas numa mulher, a pedido dela, a fim de ela gozar; e não foi tapa na bunda não, ela quis apanhar na cara.

enfim, entendedor era Nélson Rodrigues: "Todas as mulheres são loucas, mesmo as anormais."


;P
Marcos

Marcos Satoru Kawanami disse...

ah, sim, detalhe de inestimável relevância para minha reputação Moral e Cívica:

foi em pé, mas não foi com égua nem vaca nem cabrita.

foi com mulher, um bicho da espécie humana, fêmea do homem, nome científico: molieri intuitivis