sexta-feira, 9 de abril de 2010

Confissões de um Chutador de Caninos, por Jana Lisboa

Não me pré-julgue. Adoro cachorros, contudo, sob a luz do meio-dia, gritar como um animal morrendo e chutar é tudo o que consigo fazer quando os vejo. Como todo trauma, esse tem uma origem e acho que isso vocês vão se interessar em saber.

Tudo começou quando eu muito, mas muito erroneamente tomei a decisão de abrir a porta. Fui quase cegado pela claridade das luzes que me levaram a alma e deixaram nada além da sombra cinza por de traz do meu corpo. Era uma iluminação da qualidade de cenários cinematográficos ou de salas cirúrgicas de acidentes fatais. O lustre do quarto estava aceso, assim como os dois abajures ao lado da cama e os raios de sol que entravam pela janela indicavam pela sua intensidade que era quase meio dia. Tudo combinado para criar um reflexo intenso na pele deles e em mim, uma memória agonizantemente clara e vívida. Estava parado na porta do quarto dos meus pais e na cama – sem se quer me dar o benefício da cobertura de um lençol -- eles estavam fazendo sexo... como cachorros.

Quando ele estava vestido e de pé, meu pai desligava as luzes obsessivamente. Era a última tentativa que ele tinha de controlar uma casa de adolescentes imergentes – a iluminação mais rígida procedia cada indiscrição nossa. Passamos a dormir com todas as luzes apagadas com exceção da cozinha e do banheiro depois que ele pegou Isadora, minha irmã mais velha, fumando. Depois que Pedro resolveu furar a orelha, éramos obrigados a acender apenas a luz do recinto em que estávamos e apagar assim que saíssemos. Cheguei à adolescência vivendo em uma casa em constante blackout. Não podia ler no meu quarto sem que o meu pai entrasse e sem dar uma palavra de explicação, apagasse a luz e saísse. Contudo, ao fazer sexo, coisa que os pais deveriam faze no escuro, meu pai preferiu a sutil ambição da iluminação de uma investigação policial.

Estava parado à porta por um ou trinta minutos, quando escutei um som. Um som que só havia ouvido uma vez antes em um programa animal. Foi o som que um babuíno bebê emitiu ao ser arrancando dos braços de sua mãe e ser comido vivo por seus predadores leopardos. Escutava essa freqüência aterrorizada, alta e contínua até que percebi que mesmo sem abrir a boca ou mover os lábios, o som estava vindo de mim. Som sem o qual eu poderia ter aberto e fechado a porta fazendo com que minha mãe pudesse continuar sobre suas mãos e joelhos desconhecendo para sempre a presença do filho caçula no quarto.

A luz amplificada concebeu um contato visual cortante. Meu pai, minha mãe, eu. Olhos nos olhos. Meus pais fazendo sexo que nem cachorrinhos. Na verdade, eles já haviam parado com o ato sexual, eles apenas continuavam na posição de cachorrinhos. Eu tinha 15 anos e contato visual não era algo com que eu estava acostumado, não em casa. E após esse episódio, só fui descobrir a cor dos olhos da minha mãe depois do meu trigésimo aniversário.

O tempo passava de uma forma esquisita. Nano-segundos pareciam minutos e minutos eram muito longos para poderem ser compreendidos pela simples lógica terráquea. A cada tique do relógio nascia uma pergunta que não morreria com o taque.

“Por que ele não fecha a porta?”
“Será que ele vai parar de fazer esse barulho?”

Evidentemente, eu estava tendo a manifestação de um choque-traumático de média escala. Infelizmente, os dois sintomas que eu agradeceria ter - inconsciência e experiência extracorpórea - me falharam.

O que me ocorreu posteriormente é que naquele momento eu poderia ter contado ou pedido qualquer coisa para os meus pais. Até manter a luz acesa para poder ler. Mas, ao invés, eu gritei como uma presa indefesa até que eventualmente fechei a porta, fui até a cozinha ainda gritando e imaginei se aquela visão se apagaria da minha mente. Temi que a visão dos meus pais nus que nem cachorros fosse virar um holograma fixo que eu teria que carregar como fantasmas no limbo para o resto da minha vida. Daí, abri a porta da rua e levei meu grito para mundo. As pessoas almoçando em suas casas me observavam pelas janelas de suas cozinhas enquanto eu saia correndo, gritando e chutando todos os cachorros que via. Coisa que, ainda hoje, não consigo evitar.

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