domingo, 11 de abril de 2010

Entre elas: Leonardo Vinhas

Pequena observação sobre o amor

Voltei do trabalho escutando Cascadura. Nos versos de “Gigante”, Fabio canta que “não se pode ter tudo o que se quer / Grana fácil, o amor de uma mulher”. Pois é, o tal do “ter alguém”. Ter alguém é fácil. “Alguém” está sempre disponível. Você encontra “alguém” em qualquer lugar ponde você passe. Difícil, para muita gente, é saber o que fazer com esse alguém. Deixemos as piadinhas obviamente sexualizadas de lado e continuemos no tema da canção. Sabe como é, “o amor de uma mulher” (ou de um homem).
O que é o amor? Uma figura de linguagem? Uma falha de tradução? Uma palavra com duas vogais, duas consoantes e dois idiotas, como já se disse por aí? Nada mais supervalorizado, idealizado e endeusado que o amor. Não à toa, as religiões se baseiam em amar, e garantem que Deus ama além de nossa compreensão, e por isso mesmo não entenderemos e devemos nos sentir gratos por isso, vivendo em função dele.
Essa é a parte que não entendo e que me foi atingida pela canção. Toda a literatura que envolve o amor diz que ele é gratuito, não é? Portanto, ele vem de graça e – se há reciprocidade – volta de graça. Ele implica em viver e deixar viver, em se entregar e saber abandonar. É uma arte difícil, rara, e por isso mesmo sempre me soa estranho quando o “você não sabe o quanto amo alguém” vem sempre acompanhado de uma lista de tudo pelo que a pessoa passou “em nome do amor”. Oh, como é belo sofrer em nome do amor! Como nos faz grandiosos! E como usamos isso querendo ser reconhecidos pelo amor dispensado...
Também me soa estranho quando uma frase de três palavrinhas e um erro prévio de concordância, a famosa “eu te amo”, vem subliminarmente acompanhada de um contrato de exclusividade, de uma sentença do tipo “agora ficou sério” ou “vai ter coragem de terminar com quem te ama?” O tal do amor, não se contentando em ser moeda de reconhecimento, agora vira bilhete de chantagem.
Às vezes vira peça de barganha também: “troquei tudo pelo seu amor”,É engraçado que, quando nos referimos a trabalho, arte ou outra coisa qualquer, dizemos que “adoramos” a coisa. É um verbo com significado muito mais pesado e intenso, cuja força tratamos de diminuir pela repetição e aí diminuímos o comprometimento. Quer dizer, você adora o seu trabalho, mas troca por outro que lhe ofereça melhor proposta sem muita dor de cabeça. Você adora Beatles, porém Paul e Ringo não vão pensar em se matar se você começar a preferir os Rolling Stones. Por mais que você ame futebol, o Ronaldinho Gaúcho não vai fazer chantagem emocional contigo nem jogar sacrifícios que ele fez em campo na sua cara, mesmo que você desligue o televisor na hora dos jogos e não freqüente mais estádios. Enfim, tiramos o amor dessas coisas e deixamo-lo exclusivo para as pessoas. E elas têm que assumir a mesma exclusividade e compromisso para conosco, senão, de que vale o amor?
Não estou escrevendo isso como desculpa para o tal do “relacionamento aberto”, até porque seria muito tolo se eu negasse que as pessoas (todas as pessoas) geram alguma espécie de expectativa em relação àqueles com quem se relacionam, seja em nível pessoal, profissional, festivo, etc. Até para a putaria você forma expectativas: você espera que a f*** seja boa, senão, por que estaria ali na gandaia com alguém que acabou de encontrar? E expectativas, sabemos todos, podem ser superadas ou frustradas. Esse não é o ponto.
O “ponto” é justamente o amor como meio de chantagem, o amor como moeda que garante a posse, o amor que tiraniza e lhe prende a uma realidade que você, muitas vezes, não escolheu. O amor que está ali, alimentando a paixão do ciúme e a volúpia da exclusividade assumida – não à toa, usa-se mais o termo “conquista” que “sedução”.
Eu aceito ser seduzido. É terrivelmente lisonjeador, sexy e apalermante ser seduzido. Dá um misto de entusiasmo e impotência. Mas odiaria ser “conquistado”. Odiaria que me julgassem pela minha dedicação ao meu “amor”, que se apiedassem de mim por um amor não-correspondido, que vissem as manifestações desse tipo de amor como uma virtude. Não é. É um vício, um laivo de crueldade, um jorro de tirania e jogo de culpas.
Nesse aspecto eu, definitivamente, não amo ninguém. Nem a mim mesmo. Mas se você quiser conversar sobre solidariedade, respeito e confiança, ou outras coisas que realmente isentam de egoísmo o coração, é só chegar e puxar a cadeira.E quanto à música do Cascadura... olha, eu acho que “grana fácil” também não existe. Mas conheço o aconchego e carinho sinceros de uma mulher que se preocupa comigo, e dá para ter isso e uns trocados no bolso ao mesmo tempo. Se isso é amor, não sei. Mas é algo do qual gosto muito.


Leonardo Vinhas tem 30 anos, é jornalista e pretenso escritor (possivelmente, pretenso jornalista também). Mora em São Paulo sem residência fixa, e fez um monte de coisas que não costuma mais fazer. Mas ainda tem seu blogue (
www.blogdovinhas.blogspot.com), livros do Mario Quintana e um monte de coisas que ainda faz e não quer deixar para amanhã, então tá tudo certo.

3 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

profundo. identifiquei-me.

amar é ser promíscuo.

"ninguém é de ninguém, na vida tudo passa."

amar é não ter raiva.

amar é foder.

amar é ajudar quem pede ajuda.

amar é ser humilde.

amar é não ter orgulho.

amar é não se distinguir dos outros.

amar é ser irmão, é ser filho, é ser Pai.

Iago disse...

Quantas páginas o amor já não mereceu? E ainda assim, continua uma incógnita, um mistério em que todos anseiam por desvendar...
Talvez o único amor que exista, seja pelo próprio amor.

Belas palavras, as suas. Gostei muito.

mariana oliveira disse...

Gostei. Me caiu bem!