quarta-feira, 14 de abril de 2010

Hoje, Augusto dos Anjos

A Louca

Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No teu olhar feroz eu advinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida feito espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d´amor misterioso
- O segredo d´um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraça estulta.

Poemas Esquecidos - 1901.

Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

SONETO AO BILAC

Quem me dera ter a solar luminescência,
por expandir meu estro a toda parte, à vista
de toda a gente sóbria haurida de conquista
mas plena de vontade e plena de decência.

Quem me dera ter a tão altiva imprudência,
por zombar do poder, por não ser realista,
mas, com uma postura além de idealista,
ao mundo me entregar sem celeste clemência.

“Mas isso tudo é sonho, é ilusão, amigo”
—dirá quem não tem alma e vida de poeta,
e, mesmo bonachão, discordarei consigo:

Ame para entender o que se lhe é diverso,
pois o Amor, o Amor só, no coração decreta
da vida a explicação que é dada em prosa e verso.

Marcos Satoru Kawanami

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