sexta-feira, 4 de junho de 2010

Me chame de Ismael, por Janaina Lisboa

Oito anos. Lembro de muita coisa dessa idade, embora boa parte das lembranças sejam confusas. Entretanto, vejo nitidamente Tia Alice, a professora da terceira série, no dia que ela chegou na sala com um brilho nos olhos que só poderia ser de insensatez e decidiu nos seduzir intelectualmente com o que poderia ser o nosso primeiro insight filosófico.

- Não pensem numa baleia branca! – ela disse.

Depois de uma pausa de suspense, ela retomou:

- Vocês não conseguiram, não é mesmo? Todos vocês pensaram em uma baleia branca, não pensaram?

Ela estava certa, aquela escrota. Primeiro, ela zombou de mim por ter escrito ameixa com ch e agora ela me vem com essa de leitura de pensamentos coletivos. Sim, porque o Walter, Christian, Andressa, todos eles viram a tal da baleia branca na hora. Mas, eu, eu ainda estava intrigada com a porra da baleia na hora do almoço, do jantar, antes de dormir, na semana seguinte, nos meses que sucederam, até eu notar que ao dobrar a minha perna, o formato do meu joelho, batata da perna, tornozelo e pé formavam uma cachalote branca, já que eu tenho sinal no lugar exato de um olho.

Era isso. A baleia que eu caçava em minhas ondas de sinapses cerebrais, havia me pegado e agora estava para sempre em mim, na minha perna esquerda.

My own Moby fuckin’ Dick.

Persegui tanto a baleia que ela acabou virando parte de mim.

Nos anos que seguiram, a baleia ganhou companhia de um cardume de pensamentos complexos, quais acredito que alguns especialistas chamariam de “fixações obsessivo-compulsivas”.

Submergia-me em um mar de preocupações e quase fui engolida pelo redemoinho chamado hipocondria. Preocupava-me em contrair doenças – especialmente as que não têm sintomas aparentes – onde a minha falta de reclamações e de dores físicas era exatamente o que positivaria a enfermidade, a severidade do meu caso e a minha morte eminente e próxima. A moléstia me mataria sorrateiramente. Eu não a veria, assim como ninguém mais vê a baleia branca na minha perna que, não sei por que, insisto em mostrar.

Nutri uma nada saudável curiosidade sobre doenças. Afinal, não permitiria que qualquer patologia de merda vencesse o meu intelecto. Onde houvesse uma baleia branca eu iria enxergar. Mas, oh, sim, lembrei de um detalhe, como poderia ver bem essa baleia se sou míope? Temi ficar cega, daí pensei que era melhor, então, ler sobre tudo o mais rápido possível. Descobri que miopia não cegava e que havia uma grande possibilidade de existir no mundo uma pessoa igualzinha a mim.

Preocupei-me com a garota idêntica. E se eu fosse a Rutinha? E SE EU FOSSE A RUTINHA? Isso só poderia significar que A Raquel em potencial, seria capaz de matar alguém, me mandar para prisão em seu lugar, onde ela seria tão odiada, que as minhas parceiras de cela jogariam ácido na minha cara para se vingar dela não importando o quão legal eu fosse.

A sucessão dos fatos da repentina morte de um primo, final de um longo namoro aliados a presença persistente da baleia branca, minha constante morte eminente, e a perseguição do pensamento que poderia ir para prisão por algo que a minha suposta gêmea má ainda iria fazer, e lá ficar desfigurada (não sem antes ser estuprada por uma gang de lésbicas) me fizeram procurar uma psicóloga, quem fez a chocante revelação que eu não estava completamente maluca. O que eu deveria era falar. Falar para desmistificar os problemas e escrever. Escrever para fazer sólidos os meus monstros e ver que não há nada tão assustador assim. Referente à baleia ela disse que eu poderia continuar vendo-a em todos os lugares, o truque era não me importar com isso.

Espetacular.

Com exceção do fato que eu não acreditei em uma palavra sequer que essa louca disse e passei a ler além de doenças raras tudo sobre transtornos mentais. Afinal, entremos em meu cérebro um segundinho:

BALEIABRANCABALEIABRANCABALEIABRANCAEBOLAEBOLAEBOLABALEIABRANCABALEIABRANCABALEIABRANCASEXOSEXOSEXOBALEIABRANCABALEIABRANCABALEIABRANCAPRISÃOSEMOMENORSENTIDO.

Obrigada, Tia Alice.

Vinte e oito anos. Lembro de muita coisa dessa idade, embora boa parte das lembranças sejam confusas devido à ingestão de álcool. Entretanto, vejo-me nitidamente deitada do lado dele, trocando carícias, num desses momentos que você quer fazer um cartão postal para se lembrar para sempre que aconteça o que acontecer, naquele momento você estava feliz, quando resolvo fazer algo completamente insano. Pois, insanidade é a ciência de que você vai fazer algo completamente idiota, mas, de alguma forma, você simplesmente não pode evitar.

- Eu tenho uma baleia na branca na perna que ninguém consegue enxergar, quer ver?

- Como não conseguem enxergar?! Óbvio que isso é uma baleia branca!


Isso só poderia significar duas coisas: ou ele é o amor da minha vida, ou tem o mesmo parasita cerebral.

13 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...
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leila saads disse...

Excelente texto, adorei o motivador dele, tão simples, tão irônico!

Andressa Pacheco disse...

Olá!

Primeiramente, gostaria de parabenizá-las pelo excelente conteído do blog.
Vi que estão à procura do "homem do domingo", então, a minha sugestão é Jorge Rêgo. As poesias dele são uma viagem. Curto pra caramba! Para conhecerem o trabalho dele, ai vai o link: http://12trabalhosdeheracles.blogspot.com/

Valeu! ;)

joao de miranda m. disse...

Simplesmente sublime.

Cynthia Gonçalves disse...

Caramba, que turma boa! rs
Parabéns pelo blog... adorei os textos, poemas e pensamentos postados por vocês, são fortes e muito bem escritos.
Tenho um catinho para meus pensamentos também, quando puder me visite hojesouassimepronto.blogspot.com

Eduarda disse...

É a primeira vez que visito o blog. Estou adorando as publicações. Com a sua, ri, chorei, enlouqueci. Gostei demais!

kevin21 disse...

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